os moliceiros têm vela (91)


o insuportável peso da luz

assim vejo

assim vejo

o que nos separa é o essencial
isso só se torna evidente se
sobre o branco inscrevermos
o traço exacto das fronteiras
onde os desejos se dividem

fundamental reduzir o acessório
à sua verdadeira dimensão
dispensável

a luz tudo atravessa para se
fazer dia

assim te iludo

assim te iludo

(torreira; regata do s.paio; 2010)

crónicas da xávega (22)


no bordão, o peso da manga o ombro sustém

no bordão, o peso da manga o ombro sustém

traz no nome o início
a força de tudo poder ser
onde o mar e a areia
se encontram sem medos
numa fronteira breve
de espuma agonizante

em dias de haver mar
é ainda noite quando o arrais
e todos na praia à espera
ela mais um mais um mais
braços pernas corpo

conheço-lhe o riso
a linguagem franca das mulheres
que fazem vida do mar
a ternura com que fala dos filhos
a força com que compete com os homens
e vence o mais das vezes

cuida do dia
aurora
(torreira; companha do marco, 2014)