o que nunca lerás
o tempo que passou há quanto tempo no tempo parou o beijo primícia carícia guarda ainda o teu sabor o teu nome cravado nos lábios sangra iniciaste um tempo que contigo acabou há quanto tempo o tempo parou
escrevo
escrevo o tempo com imagens guardadas nos baús digitais da memória comprada a informação diz-me o quando eu sei onde ainda sei quando tudo foi ontem e ontem foi há tanto tempo sei deste caminho feito de achares e perderes sei que valeu a pena homens que conheci para desconhecer o tempo tudo limpa e lava mesmo o que mais fundo à superfície vem escrevo o tempo com imagens como todos os que arriscam palavras escrevo-me também e isso não é novo para ninguém
amigos

então trocas os nomes confundes os rostos reconheces a voz mas é tarde não tardou o tempo a crescer onde diminuis então trocas os nomes os que não esqueceste que a memória também os amigos sorriem e respondem por um nome que não é o deles os amigos são para além do nome o gesto o abraço o sorriso então sorris também porque não há trocas na amizade
ninguém mata o que foi

guardo o tempo no fundo dos olhos decoro com palavras as imagens nascem rostos nomes aconteceres não invento passados para ser hoje caminho leve de ter sido porque inteiro sou o que o tempo conta não o que contam abraço o sol e a noite os dias cheios ninguém mata o que foi
salvé salvador

regresso ao sábio labor das pequenas malhas à paciência do pescador encontro o homem escuto-o e aprendo vão colhendo as malhas gélidos os dedos do meu amigo dentro do barco agulha na mão um homem bom espera melhores dias um homem bom que repara redes porque não pode reparar os dias
dez anos

dez anos é muito tempo ou foi ontem
enredado

encontrar a primeira malha seguir o rasto ao fio caminho inverso ao da agulha depois da primeira muitas mais fizeram a rede mas essas vieram depois encontrar a primeira malha é contar a história da rede da rede toda a começar pelo fim minuciosos os dedos são a ferramenta primeira na escolha cuida deles como da verdade encontra a primeira malha ou em vez de redeiro serás enredado
2005, murtas a labuta continua

em 2005 continuava a trabalhar na praia da torreira a companha dos murtas, com o barco olá sam paio.
dos irmãos zé e antónio murta. o antónio era mais o homem de mar e o zé o de terra. creio que é em 2005 que falece o antónio em naufrágio à beira praia.
era, e é, opinião minha, uma companha familiar – da propriedade à própria composição da companha.
para além dos arrais e donos, não posso deixar de me lembrar da marlene, filha do zé, que era a responsável pela “contabilidade” da companha, e do redeiro, ti caetano da mata.