esforçado povo
no catar do pão
cansado povo
de bicar no chão
um voto
uma decisão
esforçado povo
esclarecido não
(mariscar; torreira; 2014)
em português nos entendemos
língua velha que não raiz
árvore que a cada dia floresce
português falamos sotaques
vários nos separam e unem
na diversidade somos palavras
abraçamo-nos sem faca na
manga quantas cores quantas
origens se fundem em nós
não somos os herdeiros de um ontem
que derrotámos mas construtores do futuro
sem preconceitos e sem vergonhas
descobriram agora que os lusíadas
a lírica foram escritos numa língua esquizofrénica
envergonhada diz luiz se assim foi
curvo-me perante estes libertadores
e em português me ergo desavergonhadamente
(bateira a arribar da faina; torreira; 2015)
da poesia
a poesia casa
o poeta dentro da casa
pensa-se diz-se é
o imaginado
a poesia janela
o poeta espreita o mundo
pela janela e retira-se
para dentro da casa
escreve respirou ar livre
a poesia porta
o poeta sai de casa entra
no mundo pensa-o
escreve-o descreve-o
cidadão da palavra
a poesia epígrafe
ou será epitáfio
esconde o medo do poeta
sob a capa do outro
o consagrado o inquestionável
teme pelo poeta
(moliceiros; s. paio; torreira; 2012)