crónicas da xávega (621)


o til

o til é
um sinal gráfico
que serve para nasalar
duas vogais
só duas

como temos duas narinas
seja um para cada uma
o til é democrático

o til de que mais gosto
é o do o'neil
até porque não é só um
são variações em til

há uma palavra
homófona
de o til
que é útil

mas essa não tem til
tem acento agudo
para abrir o u

(xávega; o bordão; arribar da manga; torreira; 2016)

crónicas da xávega (618)


dezembro começou com sol
dia bom para lavar e secar o natal

fiz máquina com todos os ingredientes
anticalcário detergente amaciador
programa longo
dupla centrifugação à rotação máxima

estendi na varanda coberta
não fosse a chuva tecê-las
esperei que secasse

quando o tirei da corda estava na mesma
manchas de sangue nódoas de lágrimas
aquele vermelho berrante de refrigerante
enlatado entranhado

depois de tanto trabalho o resultado
foi levá-lo para o contentor de reciclagem
e esquecer mais um investimento familiar

(xávega; dar o porfio; torreira; 2012)

crónicas da xávega (617)


imagina que não estás aqui
que este não é teu tempo
não vês não ouves não lês

imagina e escreve
um poema de amor
uma história ligeira

pedi-te que imaginasses
porque a realidade
é inimaginável

experimenta
atirar palavras contra o real
e imagina que algo muda

imagina e escreve
um poema de palavras duras
porque duros são estes dias

estás vivo e não precisas
de imaginar basta seres

(xávega; o arribar da manga; praia da leirosa; 2019)

crónicas da xávega (616)


a criança amputada
irmã da que mataram
é minha neta

a mulher que chora
a família perdida
é minha irmã

o homem que grita
o nome do filho soterrado
é meu irmão

o sangue que escorre
daquele corpo desfeito
é o meu sangue

como podem querer
que me cale

(xávega; pancada de mar ; torreira; 2013)

crónicas da xávega (614)


escolho escolher

escolho o que como
o que bebo sei o que posso
onde vou e quando

eu na minha inteireza sou
rocha antiga firme
em convicções e causas

não conheço quem
possa escolher um povo
que não o escolha

é pescadinha de rabo
na boca e isso
só com arroz de tomate

(xávega; zorra carregada com barco em fundo; torreira; 2013)

crónicas da xávega (613)


cavar fundo
revolver a terra

cavar mais fundo
abrir pedras

na raiz da palavra
o coração do poeta

saboreio o fruto
digo o poema

(xávega; rede seca carregada a preceito; o voo do saco; torreira; 2013)

nota: depois de ter secado, estendida no areal, a rede é colocada sobre a zorra – estrado de tábuas pregadas sobre toros, com uma corda para poder ser traccionada – com a seguinte sequência : mão de barca; saco; reçoeiro (terminologia da torreira)