o momento
o momento não é
errado nem certo
o momento é
substantivo e absoluto
adjectivá-lo
é querer ser dono
do impossuível
sê o instante pleno
o momento

(torreira; 2013)
o momento
o momento não é
errado nem certo
o momento é
substantivo e absoluto
adjectivá-lo
é querer ser dono
do impossuível
sê o instante pleno
o momento

(torreira; 2013)
não te preocupes

ninguém te escreverá
para a tua última morada

(torreira; 2013)
da partida
o fechar da porta
tantas portas
no fecho de uma só
o olhar último
antes de
guardado para
as falas do tempo
memórias
de dias tantos
não sei se sabes onde
o sol vai nascer amanhã

(torreira; 2012)
de palavras
de palavras farás
a casa
nela habitarás
nu
despido de tudo
cheio
de ti

(torreira; 2013)
diálogo com álvaro de campos

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
nem isso álvaro
nem isso

(torreira; 2013)
recuso
recuso que me roubem
a terra que me deram
que herdei
recuso deixar de ser

o arrais joão da calada, a reparar redes
(torreira; 2013)
as mãos
as mãos
chegam pela manhã
a carícia
quanto partem
dizem em silêncio
a dor de
as mãos que dei
não esperavam nada
nem o que recebi
poucos são os
finais felizes

(torreira; 2016)
agostinho
vejo-te e sei-te
agostinho
não há búzios
aqui
ouve-se o mar
em directo

o meu amigo agostinho canhoto e o bordão
(torreira; 2013)
dos nós
desfazer nós
é trabalho sujo
de mãos outras
ditas limpas
desfazer nós
é desfazermo-nos
criá-los é fazermo-nos
nas mãos do pescador
a arte de fazer e desfazer
os nós das cordas
mas essa é outra arte

(torreira; 2010)
cacilda
escrevo devagar
o teu nome
em cada letra
bebo o mar
cacilda és uma gamelas
filha do ti chico
irmã do cipriano
cacilda
sal escamas cordas redes
norte areia
por vezes peixe
cacilda
o sorriso as palavras
poucas o corpo entregue
à faina
cacilda
és MULHER
do mar

(torreira; 2013)