
o fechar do saco
o poema
o poema
fechou-se sobre si
olhou-se pensou-se
disse-se
o poeta envergonhado
cobriu-se de palavras
descansou
esperar é um acto
de sabedoria
o poema se o houver
dir-se-á de novo

o fechar do saco
(costa de lavos; 2017)

o fechar do saco
o poema
o poema
fechou-se sobre si
olhou-se pensou-se
disse-se
o poeta envergonhado
cobriu-se de palavras
descansou
esperar é um acto
de sabedoria
o poema se o houver
dir-se-á de novo

o fechar do saco
(costa de lavos; 2017)
bem vindo à sua terra
bem vindo à sua terra
dizem-me quando
não sei desfazer este nó
prendem barcos
unem cordas
ligam gente
são raízes
os nós
mas como são frágeis
os nós humanos
como somos
sem nós
há nós impossíveis
de desfazer
pois há

(torreira; 2010)
cacilda
quantos instantes tem o ano
cacilda
quantos anos um momento
perdi a noção do tempo
cacilda
voou como as gaivotas
em torno de ti e são muitas
o tempo tem muitos tempos
cacilda
é enorme o tempo dos amigos
o teu tempo
há quanto tempo te conheço
não sei
no esvoaçar dos dias salgados
perdi a noção do tempo
é infinito todo o instante
se ao pé do mar dos amigos
cacilda
neste instante cabem muitos anos

cacilda brandão (gamelas), mulher de mar e da maior família da torreira, os gamelas
(torreira; 2011)
faz-te ao mar

faz-te ao mar tóino
não há pão em casa tóino
faz-te ao mar tóino
talvez dê carapau tóino
faz-te ao mar tóino
talvez dê sardinha tóino
faz-te ao mar tóino
não tens outra vida
faz-te ao mar
faz-te

(costa de lavos; 2017)
plantem-me no mar
duvido de tudo
estou vivo
para questionar
alinhados em canteiros
com flores de plástico
visitas em data certa
jazem os que aceitam
mesmo depois de
continuarei a duvidar
recuso o canteiro
plantem-me no mar

(torreira; 2013)
o meu amigo agostinho trabalhito (canhoto)
a mais ninguém
cinzentos
os dias sucedem-se
monótonos diversos
suceder-se-ão
o tempo
esse assassino impune
a cada dia me leva amigos
levar-me-á
o que o tempo
me não roubou ainda
homens levaram
perdoo ao tempo
é da sua natureza
a mais ninguém
a mais ninguém

(torreira; a escolha; 2009)
o repartir do pão
quando o pouco
é muito

(praia de mira; 2009)
da casa e do mar
moro ao pé do mar
e não o vejo
das minhas janelas
ouço-o nas noites
de temporal
entra na casa como
se sua e eu
as vistas da casa
são outras casas
com outros eus
chamam a isto
cidade
porque muitos
saio de casa
em direcção ao mar
e é sozinho
que me reencontro

(praia de mira; 2009)
a fuga ideal
o poema
dobrou-se sobre si
olhou-se pensou-se
disse-se
o poeta deitou-se
adormeceu coberto
de palavras
dormir não é
o melhor remédio
fechar os olhos
é viver por dentro
a fuga ideal de ser

(torreira; 2010)
o beijo

salgados serão
os lábios
se de mar
o beijo

(torreira; pancada de mar; 2016)