não creio
não creio em deus
e isso traz-me uma
felicidade diversa
como não existe
não me trará
qualquer problema
menos um
com que me
preocupar

(torreira; 2012)
não creio
não creio em deus
e isso traz-me uma
felicidade diversa
como não existe
não me trará
qualquer problema
menos um
com que me
preocupar

(torreira; 2012)
eis o poema
semeia as palavras
ao sabor do sentir
sê nelas
revê-as com a razão
encontra-lhes ritmos
os teus
refaz depois a sementeira
mas cuida de quem
a poderá colher
de nada servirá
o que semeares
se não for colhido
caminha pela areia
carregado e sereno
eis o poema

(torreira; 2012)
de mim

a minha terra
é o mar

(torreira; 2010)
vive
tudo é efémero
e belo
o momento existe
e tu
vive

(costa de lavos; 2017)
da vida
(“não há ensinamento maior que o exemplo” – bruno vieira amaral)
no fim
muito próximo
do fim
desaprendi

(espinho; recriação da xávega com bois; 2012)
redeiros
arte minuciosa essa
como se de aranha
labor de mãos sábias
recolho nelas
o terem sido antes de mim
muito antes
as mãos dos meus maiores
mãos duras e simples
de trabalho
mãos transparentes
e límpidas
mãos que faço minhas
com orgulho
de ser deles mais um
não escrever eu
como eles rede faziam
é o que me dói

(torreira; 2015)
para a ana
os anos passaram
rolos de corda
de uma outra safra
lembro-me de ti
e do alfredo
a teus pés menino
quantos rolos ana
quantas safras
o alfredo a crescer
a cada ano
um homem grande
o teu filho
menino por dentro
a sorrir
hoje lembrei-me de ti ana

(torreira; 2010)
contigo
estendo-te a mão
para que te ergas
não para me afundar
contigo

(torreira; aparelhar das mangas 2016)
ouço-te cacilda
indizível o silêncio
verbalizá-lo é negá-lo
escrevo silêncio
silenciosamente
ouço-te cacilda

mulher do mar da torreira, a cacilda
(torreira; 2016; carregar o saco)
vencer os dias
vencer os dias
como se degraus
caminhar contra
caminhar sempre
a dúvida por vezes
o cansaço
desistir é tão fácil
o caminho vai longo
duras são as pedras
que mordem os pés
vencer os dias

(torreira; 2013)