cai de ku
na era da
informação a desinformação
a ganhar
(xávega; o arribar da manga; torreira; 2016)
em louvor dos críticos
contava meu pai
que um amigo aposentado
se dedicou a uma
quinta que tinha no norte
cada amigo que o visitava
deixava um conselho
sobre como cuidar da terra
todos tinham opinião
cansado o aposentado
colocou na entrada da quinta
um letreiro onde se lia
aceitam-se conselhos
não de quem saiba mais
mas de quem tenha feito melhor
foi o fim dos conselhos
se ele se tivesse dedicado
à poesia escrito estava
o seu melhor poema
eu que leio muito
e sou miudinho na leitura
que olho com olhos de fotógrafo
e oiço com ouvidos de tísico
penso
ah aposentado que ainda estavas
ao serviço
(xávega; saco seco vai para o carro; praia da leirosa; 2019)
mais um ou menos um
esquece o tempo dividido
nada é novo
tudo é continuação
sim é fácil desejar
difícil é fazer acontecer
por isso desejas
a guerra a fome a miséria
o sangue o terror
que ensopam a terra
são há muito desejo
de que acabem
e continuam continuam
faz da palavra acto
o pouco que vales
valerá mais
por isso não desejes
sê sujeito activo
nos dias a vir
não esqueças
a desumanidade não pára
(xávega; pancada de mar; torreira; 2016)
recuso o silêncio cúmplice
os acomodados dias
sofá lareira
livro música
recuso não ser aqui
no meu
tempo o grito a revolta
o nojo
recuso o jardim o quintal
mesmo se num qualquer andar
a cadeira de braços a sombra
o perfume das flores
recuso a clandestinidade
do que penso
sou e digo-me
não vou a chás das cinco
(xávega; ir ao mar; torreira; 2013)