xávega, no tempo dos bois


o arrais joão da calada

o arrais joão da calada à frente da junta

 

a construção da memória

 
escrevo o tempo
na areia dos dias
e sei
que nada é eterno
apenas prolongo
o ter sido

 

as memórias
que ofereço
são o meu tempo
que deixa de ser meu
para ser nosso
para ser vosso

 

isso tenho feito

 
(torreira; séc. XX)

 

ao arrais joão da calada devo muito do que sei sobre as gentes e a xávega do seu tempo

 

a regeira e o bordão


 

 

 

ana amaral e alfredo neto

ana amaral e alfredo neto

nos barcos que se fazem ao mar apoiados por uma muleta de apoio simples, no golfião de estibordo (norte) é amarrada uma corda, chamada na torreira de “regeira”, que faz fixe à proa e é amarrada a um bordão espetado na praia e seguro por um dos camaradas.

este fixe impede que as correntes de norte virem a proa do barco para sul, deixando de estar perpendicular à ondulação criando uma situação de perigo. para isso tem de ser mantida tensa recorrendo a mudanças de posição do bordão.

concluído largar o homem da proa larga a regeira que é recolhida pelo camarada de terra e levada para sítio seguro.

em 2010, lembro-me, o ti alfredo neto era o homem de terra da regeira.

a carregar a regeira vão a ana amaral e o ti alfredo neto.
(torreira; companha do marco;

carta a pedro e ….


 

a força do homem

a força do homem

 

como queres que entenda
o que dizes
se do riscado disco
mesmo depois de feito reparo
continua a ouvir-se na sala velha
da velha dama
a antiga canção do bandido

não como números
não os visto
queres que os dê ao pequeno almoço
às crianças e ao almoço ao idosos
os sirva de jantar nas ruas aos sem abrigo

na janela dos teus olhos
só se pendura roupa suja
da tua boca pingam nacos de toucinho velho
come-los tu e dá-nos os teus manjares
isso sim entenderia
entenderíamos

não prestas como vendedor
mas sei como te compraram

(regata da ria; junho 2010)

as longas manhãs da xávega


 

cacilda brandão

cacilda brandão

 

pelas 4 da madrugada o arrais vai até às dunas ouvir e sentir o mar. se estiver de feição chama a companha, agora por telemóvel, e ao raiar do dia já o barco está no mar.

são 3 os factores de que depende uma manhã de xávega:
– o estado do mar
– a qualidade e a quantidade da captura
– o preço de venda

se os 3 forem favoráveis, a companha poderá fazer até 3 lanços de manhã, o que implica trabalhar sem parar até ao meio dia, uma hora.

intervalo de hora a hora e meia para almoçar e volta-se de novo ao mar, se este o permitir. os lanços da tarde dependem, como os da manhã, dos mesmos factores.

as manhãs da xávega são longas quando se pode e se justifica pescar.
– o ti chico brandão, já falecido, foi pai de 9 filhos, a cacilda é sua filha e mulher de mar. braço de trabalho como poucos-

(torreira; companha do marco; 2010)