o fim, meu amigo


 

a bateira dorme

a bateira dorme

aqui estou encalhado
até que tudo se conclua
com o abate oficial
registado em livro adequado
onde mais um serei
a somar aos que já foram

quedei-me aqui
imprestável para outra coisa
que o não ser

deixaram-me rente à ria
à minha amante de tantos anos
para a amar em silêncio

dormimos lado a lado
nada mais
amanhã ela será de novo

eu
eu não acordarei mais

 
(ria de aveiro; torreira)

nicole e o carapau


nicole

nicole

 

 

está a acabar a minha safra fotográfica do ano de 2010, os momentos aproximam-se do fim. foram muitos, mas este é um dos que mais me toca.

o nicole veio da ucrânia em busca do oiro português, como muitos seus compatriotas trabalhou nas construção civil, sem contrato, sem horário, sem condições.

até que um dia, os músculos cederam ao martelo compressor e o braço ficou incapaz de contribuir para a sua subsistência na construção civil.

veio para a torreira onde, dizia ele, tinha encontrado entre os pescadores uma nova família. vi-o sempre bem disposto porque era verão.

2010 foi o seu último ano em portugal, regressou à ucrânia e pouco tempo depois morreu.

entre nós ficaram laços de amizade selados pelo mar e seus frutos.

por mais que fale do nicole, nunca digo tudo, porque nunca sou capaz de me despedir dele, continua a sorrir e a estar aqui.

 

 

(torreira; companha do marco; 2010)