crónicas da xávega (31)


aguenta delmar, não largues o calão

aguenta delmar, não largues o calão

o abraço

desenhar as palavras
à altura da vaga vencida
será tarefa árdua

chegar onde estes homens
dizer deles o que
sem saber coo chegar até

escaldante como a areia
o pensar ser

morrer na praia é desejo
viver no mar é urgente

o abraço

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(torreira; companha do marco; 2014)

os moliceiros têm vela (6)


isto é um moliceiro a todo o vapor

isto é um moliceiro a todo o vapor

O barco moliceiro, ex-libris lagunar (conclusão)

………..

A nosso pedido, os frisos marítimos e florais são dos mais singelos e tradicionais, o espaço cénico é completamente preenchido e pormenorizado, mantendo-se à proa, a BB, uma legenda identificativa do construtor, bem como a localidade, com o mestre a cavalo, lembrando a figura equestre de antanho.

«MESTRE ANTÓNIO ESTEVES – PARDILHÓ – »

Na proa de estibordo, uma legenda tipo apelativo, em que o  narrador presente exprime o desejo de que Deus ampare os nossos pescadores que saem para a pesca do bacalhau, coaduna-se com o desenho brochado.

«DEUS VOS GUIE PESCADORES»

Na ré, a BB, uma cena campestre, vulgar e antiga, serve de suporte à frase interrogativa, maliciosa e brejeira, que joga com um duplo sentido, no discurso do interlocutor masculino.

«ONDE QUERES QUE TE CARREGUE?»

Na ré, a EB, como era hábito, mais uma garotice, em que o narrador não participante joga com o duplo sentido da palavra «passarinha», numa frase exclamativa. Uma bela e rechonchuda moçoila, de mini-saia, apanha um passarinho, lá no alto de uma árvore, encarrapitada num escadote.

«QUE RICA PASSARINHA!»

As outras zonas decoradas desta embarcação enaltecem o conjunto: o barrote do castelo da proa, a antepara da proa, os dois golfiões, a base da bica, a parte fontal da tampa móvel da entremesa, as extremidades dos forcados biqueiros e a divisa do construtor que o pujante leme negro ostenta.

O pintor revela um cuidado especial com o grafismo do registo-A – 1937 – M, em que o número escolhido pelos órgãos directivos do museu pretende lembrar o ano da sua fundação oficial – 8 de Agosto de 1937.

Ana Maria Lopes
Vice-presidente da Direcção dos Amigos do Museu de Ílhavo

ao vivo e a cores

ao vivo e a cores

(muito obrigado dra ana maria, pela cedência do texto para pulicação)

postais da ria (48)


a aparente calma da ria

a aparente calma da ria

aos senhores da terra

de longe vem a umbilical corda
de muito longe
no dizer da terra onde vós
“não agouchais”
o tão que é

erguer-se-iam do chão as vozes
dos mais antigos
desconhecendo ser esta a terra sua
por vós marcada
se possível fosse coisa tal

ilusão vossa a de serdes mais do que
debaixo vos olham e enormes
ínfimos se de mais alto
vêde-vos tão pouco

quem disse que podieis?

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(murtosa; cais do bico)

os moliceiros têm vela (5)


em 2007 era assim, no bico

em 2007 era assim, no bico

O barco moliceiro, ex-libris lagunar (continuação)

Dra Ana Maria Lopes
A galeria de tipos é quase infinita.

O rapaz e a rapariga em situação de trabalho e/ ou em relação amorosa plena de malícia contrastam com o galã e vampe enamorados.
Com maior ou menor grau de flexibilidade, mais ou menos de acordo com «a escola» do pintor e o seu grau de sensibilidade, todos os painéis sobrantes estão dentro dos cânones da pintura de moliceiros: motivo central, sublinhado por uma legenda e emoldurado por frisos geometrizados.

Na retina, ficam as cores puras e luminosas: o amarelo, o verde, o azul, o vermelho, o branco e o preto; as gamas intermédias aparecem só num ou noutro pormenor. Tem-se evoluído muito, neste aspecto, como já referimos.

Este conjunto de cores é igualmente usado noutros artefactos locais – as cangas vareiras.

Foi a decoração do moliceiro que influenciou a da canga? Ou, pelo contrário, a da canga que influenciou o moliceiro?

Segundo nosso entender e o de outros – 6 – estudiosos, ambos reflectem a opulência económica da classe dos lavradores muito ligada ao poder político local, nos séculos XVIII e XIX.

Pela vibração cromática, pelos contornos bem marcados, por um figurativismo de planos frontais, pela ingenuidade, pela adaptação do desenho à superfície, pelo recurso a temas do quotidiano, os painéis dos moliceiros constituem exemplos belíssimos de pintura «naïf» concordantes com as quatro legendas sistemáticas plenas de graça -7-.

Normalmente, estas são
inscritas numa estreita faixa branca ou rósea, situada na parte inferior do painel entre o friso e o motivo principal.

Os grafismos usados foram mudando desde a letra minúscula à maiúscula, alternando-a ou misturando-a, manuscrita ou tipográfica.

Tendo acompanhado a construção desta embarcação junto do Mestre Esteves, no seu estaleiro, sempre tivemos a preocupação de que os métodos construtivos e os materiais utilizados fossem o mais tradicionais possível. E com a decoração, aconteceu o mesmo junto do pintor, o José Manuel Oliveira, respeitando o seu estilo. Defende e pratica a mesma linha pictórica com que debutou desde o final dos anos 80, vai acompanhando nos seus painéis os eventos que se vão sucedendo, usando igualmente a diversidade de temas a que estávamos habituados. Não põe completamente de lado o tradicionalismo do painel da proa a BB, reinventando-o. O Zé Manel impôs-se como o mais famoso, produtivo e inovador pintor de painéis de moliceiro.

(a continuar)

-6- Senos da Fonseca, obra já citada, p. 164, Porto, 2011.

-7- Ana Maria Lopes, Moliceiros – A Memória da Ria, 2ª edição. Âncora Editora, Lisboa, 2012.

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(murtosa; bico; regata moliceiros; 2007)

a murtosa não é a pátria do moliceiro?


o "António Garete" a navegar, na regata do bico de 2007

o “António Garete” a navegar, na regata do bico de 2007

– a propósito de uma publicação do rui cruz, na sua página do facebook – 

(Kiss – keep it simple stupid ou kill it simply stupid

tradução: faz simples estúpido, ou, mata-o simplesmente estúpido)

as siglas dão para muita coisa, haja imaginação e, sem ela, não há técnica, nem design, que resista.

vem isto a propósito de uma a análise técnica de “design” de rui cruz sobre o “novo” logotipo do Município da Murtosa. há argumentos técnicos para tudo, mas os melhores são os que são tão técnicos, tão técnicos, que parecem só isso. ora a técnica não é algo de intocável, está na moda recorrer a “independentes” na política e à “técnica”, para que tudo pareça limpo de influências de quem manda, melhor ou pior.

mas será só a técnica de design que justifica o logotipo? em termos de design seguiu as regras, logo está bem. é um raciocínio simples e redutor, um raciocínio kiss. mas, digo eu, no caso da marca/logotipo de um município, ser só um designer a decidir é muito pouco ou quase nada, dada a importância que a imagem carrega em si mesma. será que não deveriam ser ouvidos pareceres de outras áreas? se a murtosa á pátria do moliceiro o logotipo pode ser um barco qualquer? veja-se o logotipo do município de aveiro, simples, sim, mas vê-se que é um moliceiro.

LogoAveiro

um argumento técnico, de um técnico da área em causa, e …. lá se vão os argumentos dos não especializados. quantos crimes se cometem em nome da técnica? a começar no ambiente por exemplo, sempre muito sustentados por argumentos técnicos. não é verdade rui cruz?

mas, continuemos, para ilustrar a sua teoria, o rui cruz diz que há barcos moliceiros a navegar sem vela e mostra o moliceiro “António Garete”, varado num ancoradouro. bom, se isto é navegar…. entendo. navega, sim, como na foto, que aqui insiro, na regata do bico em 2007. infelizmente o “António Garete”, se ainda não foi destruído, navegará agora, provavelmente, no canal de aveiro, com outros amputados, sem mastro nem vela.

em resumo, e sem abordar ainda as questões metodológicas e legais subjacentes a todo o procedimento, queria deixar aqui uma palavras de um designer da murtosa :

“ ….talvez fosse de interesse da comunidade marinhoa, a edilidade lançar um repto a todos aqueles que ligados ou não ao design cá na nossa Santa Terrinha pudessem colaborar, apresentando um esboço do que poderia vir a ser a nova “marca” do município da Murtosa. Após selecção e escolha do melhor trabalho, feita pela assembleia municipal, o departamento competente na câmara deveria abrir concurso para as empresas de design interessadas desenvolverem o trabalho pretendido baseadas no referido esboço. Essa nova “marca” teria certamente um cunho mais comunitário, mais democrático, “mais nosso”.Para terminar seria injusto não referir que a empresa referida como estando a trabalhar no projecto, é competente e tem capacidade para desenvolver um trabalho criterioso. “

é um parecer técnico, e não só, de um designer. talvez assim seja mais fácil de entender que a técnica só por si não justifica tudo.

lutar hoje contra a extinção dos moliceiros, é de facto o mais importante, temos visto o que as autoridades locais e regionais têm feito, e o que têm feito os que isto afirmam. este é também um tipo de argumento muito utilizado para desviar as atenções da discussão de um caso particular: falar no geral. parece que estamos a perder tempo nestas discussões de pormenor, que não o são, enquanto deixamos passar o fundamental. é assim que nada se faz, dizendo que há coisas mais importantes a fazer.

não há polémicas em vão, há é silêncios convenientes.

navegar é preciso

navegar é preciso

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (4)


moliceiros, homens e barcos

o erguer dos mastros nos moliceiros do ti zé rebeço e do mestre zé rito

O barco moliceiro, ex-libris lagunar (continuação)

Dra Ana Maria Lopes

O espaço central dos painéis é (era) sempre acabado de preencher com arabescos ou com um motivo floral: flor, vaso geometrizado ou ramo mais ou menos esguio. À medida que se aproximam da periferia, as decorações tornam-se mais geometrizadas, terminando por três tipos de frisos estilizados. Estes conseguem-se através de uma combinação diferente de traços sobre um padrão comum, formado por círculos de dois tamanhos, desenhados sobre uma linha recta.

Dois deles lembram o roliço das conchas, o terceiro, talvez inspirado pelo movimento das águas intercalado com fragmentos de moliço, é normalmente preferido para a zona que vai dos golfiões à bica da proa, esta, sempre de cor vermelha.

Feita a homenagem aos elementos marítimos, o elemento rural não podia faltar – são as flores campestres, simples e estilizadas, repetidas ou alternadas, que servem de motivo inspirador. A ornamentação marítima, geometrizada, tem sido muito mais conservadora. A campestre, fruto de uma busca de perfeccionismo e originalidade de alguns pintores, foi evoluindo e assim acontece até aos dias de hoje.

O espaço central do painel ocupa lugar privilegiado, pois é aí que os artistas têm expressado ao longo dos tempos um vasto repertório de imagens e acontecimentos.

A decoração do barco também tem evoluído. E, de figuras simples enquadradas por contornos, o motivo passou a ocupar toda a área, tendo vindo a pormenorizar-se o cenário.

As temáticas, variadíssimas (amorosas, religiosas, patrióticas, históricas, desportivas, ecológicas, festivas, folclóricas, sociais, campestres, marítimas, heráldicas, brejeiras), não são estanques e a brejeirice é quase sempre transversal a todos os painéis. Excepto nos mais respeitadores.

A imagística do moliceiro tem acompanhado a evolução dos tempos: a presença da televisão, da mini-saia, da integração da C.E.E., do euro, o apelo à limpeza e defesa da ria, a saudade dos tempos antigos, a problemática da arte xávega, do alcoolismo na condução, a doença das vacas loucas, a crise, a austeridade, a corrupção, a tróica, concursos televisivos, comprovam-no. Inclusivamente, um ou outro acontecimento mais relevante em determinado ano permite datar a decoração do barco: a Expo 98, o V Centenário da Descoberta do Brasil (2000), os Campeonatos Europeu e Mundial de Futebol (2004 e 2006), a selecção das Sete Maravilhas do Mundo (2007) e outros

(a continuar)

(os moliceiros do mestre zé rito e do ti zé rebeço)

postais da ria (47)


ilusão ou realidade?

ilusão ou realidade?

sê a pedra

quebra o silêncio
diz o necessário
acorda o alheamento
a ignorância de
o não saber

importa pouco se
de perder for
importa muito que
fiel a ti sejas

nenhuma derrota
é vitória de outro
só tu te derrotas
só tu

sê a pedra

a luz

a luz

(ria de aveio; canal de ovar)

os moliceiros têm vela (3)


o barco da frente, do mestre zé rito, a cambar

o barco da frente, do mestre zé rito, a cambar

O barco moliceiro, ex-libris lagunar

(continuação)
Relativamente à pintura do barco, temos a referir que, inicialmente, o costado era amarelado, devido ao uso do pez louro, mas nas amanhações (reparações para manutenção) anuais, passava a ser embreado (coberto de breu), o que melhorava a sua resistência. Os que ainda restam são pintados a tintas de cor forte, a gosto do dono.

«Nenhum dos barcos da larga família etnográfica e longa ascendência tem a graça e o valor pictórico do moliceiro da ria de Aveiro». – 4 –

À proa e a ré, a bombordo e a estibordo, apresenta quatro painéis, com espantosas cercaduras policromas, flores e ramalhetes pintados em cores berrantes e estilizações bizarras, cheias de ingenuidade ou ingénuas de malícia. Para além da harmonia de linhas que fazem do moliceiro uma embarcação muito «sui generis», o seu grande encanto reside na decoração que ostenta. É o barco mais ricamente decorado e mais decorativo. – 5-

Citando, de novo, Luís Chaves – «Os barcos vestem-se como se vestiram os corpos. E se enfeitaram, guarneceram (…) nos barcos, como nos vestidos, há faixas coloridas, paralelas ou não, grades ou xadrezes, barras, flores estilizadas ou realistas, emblemas, etc. O princípio do revestimento é o mesmo.»

Barcos havia ao longo do nosso litoral que ostentavam ou por embelezamento ou superstição alguns signos pictóricos interessantes: pinturas de olhos, cruzes, emblemas, pequenas figuras, etc. Aqueles cuja decoração atingiu uma maior superfície e grande beleza foram os varinos do Tejo, seguidos dos botes e das canoas.

Mas, os moliceiros com as suas quatro iluminuras de uma diversificação estonteante fizeram da ria de Aveiro uma galeria de arte fluida, em que todos estes elementos estéticos foram mergulhando.

Há quem considere a proa, pelo seu formato, a parte monumental do barco, já que a diferença da construção limita, na ré, o espaço para decorações. No entanto, é na ré que por vezes surgem os mais sugestivos desenhos e legendas mais espirituosas, talvez para compensar em expressão o que reduz em espaço. Hoje, não é bem, bem, assim, porque o espaço decorativo da ré tem aumentado.

Normalmente, o olhar do observador é levado para o centro do painel onde o motivo central aparece livremente ou limitado por um círculo, uma fechadura, por uma «casa» ou ainda por cortinados encimados pela coroa real. Utilizavam-se mais os círculos e cortinados à proa e as fechaduras e «casas» a ré.

-4- Luís Chaves, Os Transportes Populares em Portugal – carros e barcos. FNAT. Gabinete de Etnografia, Lisboa, 1958.

-5-  Nem sempre assim foi. Há provas imagéticas de que as primeiras decorações, mais incipientes, terão aparecido apenas em finais do século XIX.

(a continuar)

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torreira; regata do s.paio; setembro, 2014

crónicas da xávega (29)


e o s. josé galga a onda

e o s. josé galga a onda

perde-se no longe do tempo
o haver mar

tarde chegou o homem
a estas praias
trazido por caminhos
perdidos por aí

cedo venceu o medo
não fora homem
cedo ganhou o mar
não fora gente
cedo comeu o estranho pão
não tivera fome

resistem ainda alguns
em praias quase desertas
abandonados à sua sorte
pelos donos da terra

eles que vencem o mar
que não temem o medo
morrem nas secretarias
assassinados por burocratas

perdem-se no tempo
sobrevivem

heróis do mar

heróis do mar

(praia de mira; companha do zé monteiro)