“Escrava” faz parte do livro ” PORQUE UM RIO TAMBÉM SE CANSA”
Mês: Maio 2021
postais da ria (389)
caminho andado
caminho descalço pelos dias de estar aqui olhos abertos como mãos em tempo de fruta madura caminho descalço dorido de tantos cacos pedras vidros pregos recuso o conforto da cegueira auto imposta felicidade falsa de luas inventadas doem-me os olhos de ser

para mim será sempre o fausto
fausto bordalo dias no programa “primeira pessoa” da rtp
https://www.rtp.pt/play/p7801/e543401/primeira-pessoa
(antes de ler o que segue, aconselho a assistir à entrevista clicando no link acima)
foram sem dúvida momentos que me emocionaram ao ver e ouvir o fausto e que me entristeceram ao ouvir fausto bordalo dias. vi o cantor que admiro há muitos anos a necessitar de se apoiar numa fátima campos ferreira para caminhar, vi e doeu.
depois ouvi fausto bordalo dias falar por entre o fausto, e essa é outra tristeza, um homem lúcido pois assume, quase no fim da entrevista, que o que vai dizer vai desagradar a muita gente. mas é, também, quase de início que o faz.
atento que sou às palavras, cujo valor e significado tanto diferem consoante o por quem, o onde e o como, aqui ficam algumas breves meditações suscitadas pelas palavras de fausto bordalo dias.
minuto 05:43 “no planalto do Huambo, numa cidade que se chama Nova Lisboa, ou que se devia chamar ainda Nova Lisboa … “
que fausto bordalo dias se manifeste em relação a alteração de denominações de terras e monumentos no pós 25 de abril em portugal, é algo que como português, concordando ou não, lhe reconheço o direito de o fazer. mas manifestar-se em relação à designação atribuída a uma localidade que não é do seu país …. ele que no minuto 37:54 afirma ” eu não sou nacionalista, sou um patriota “, não reconhece aos patriotas de outras pátrias o direito de o fazerem!
no minuto 26:32 “Cabo Verde não existiria como país independente se Portugal não tivesse levado para lá pessoas. Vou-me atrever a dizer que muitos países africanos foram mais felizes com Portugal – infelizmente felizes com Portugal -, do que agora. Ou seja, quando uma independência não concorre para a felicidade dos povos alguma coisa está errada. “.
mais afirma no minuto 27:14, referindo-se aos povos da ex-colónias, “Eles viveram mais felizes antes da independência do que vivem agora. Eu sei que isto desagrada a muita gente mas é verdade“
não saindo do contexto do dito na entrevista, não deveria fausto bordalo dias, arrepender-se de, como disse no minuto 14:44 “fui considerado refractário” – ou seja, não foi à guerra, onde morreram 8.600 militares portugueses – e reconhecer que deveria ter participado no ‘esforço nacional de manutenção do império’?
para concluir uma nota breve sobre a sua demarcação em relação à “canção de intervenção”, afirma no minuto 16: 04 “era a canção de protesto, que a canção de intervenção é depois do 25 de Abril. porque a canção de protesto era essencialmente metafórica …”
curiosamente, do meu ponto de vista, a primeira música de intervenção de cariz ecológico é a “Rosalinda” do fausto, estávamos em 1976, havia uma central nuclear pensada para “ferrel, lá para peniche” e fausto escreve e canta:
Rosalinda se tu fores à praia se tu fores ver o mar cuidado não te descaia o teu pé de catraia em óleo sujo à beira-mar a branca areia de ontem está cheinha de alcatrão as dunas de vento batidas são de plástico e carvão e cheiram mal como avenidas vieram para aqui fugidas a lama a putrefacção as aves já voam feridas e outras caem ao chão Mas na verdade Rosalinda Nas fábricas que ali vês O operário respira ainda Envenenado a desmaiar O que mais há desta aridez Pois os que mandam no mundo Só vivem querendo ganhar Mesmo matando aquele Que morrendo vive a trabalhar Tem cuidado... Rosalinda se tu fores à praia se tu fores ver o mar cuidado não te descaia o teu pé de catraia em óleo sujo à beira-mar Em Ferrel lá p´ra Peniche vão fazer uma central que para alguns é nuclear mas para muitos é mortal os peixes hão-de vir à mão um doente outro sem vida não tem vida o pescador morre o sável e o salmão isto é civilização assim falou um senhor tem cuidado..."
nota (1) – por poder ser considerado polémico o que escrevi, agradeço que quem não estiver de acordo o manifeste
nota (2) – fausto bordalo dias não está senil, nem foi corajoso, atingiu apenas a idade em que nós portugueses achamos que “podemos dizer tudo”
“Menina dos olhos tristes…” de reinaldo ferreira
“Hölderlin_7” de manuel silva-terra
“Hölderlin” é um poema-livro do qual irei fazendo leituras de colagens que me pareçam congruentes
ir ao mar com o chico giesteira em 2006
em 2006 para além das companhas de pescadores da torreira – olá sam paio e maria de fátima – trabalhavam ao sul do molhe sul duas companhas de pescadores do furadouro : a companha do jacinto e a companha do pepolim. a primeira com o barco “srª da piedade” a segunda com “o jovem”.
a companha do jacinto só fez a safra de 2006, a do pepolim ainda por lá continua.
liderada pelo arrais chico giesteira, descendente de uma das famílias de arrais mais tradicionais do furadouro, o chico é um grande arrais, certamente o melhor arrais que até hoje conheci.
para acompanhar a faina tinha de esperar que viessem ao pão, à torreira, ao meio da manha e me dessem boleia de tractor até ao acampamento, onde almoçava com a companha.
um dia houve em que, de manhã, vendo o mar mais manso, disse ao chico: hoje vou ao mar.
quando o barco se preparava para partir desci até à borda de água e ao olhar para as ondas mudei de ideias e disse ao chico: afinal já não vou.
de sorriso nos lábios respondeu-me : eu já sabia, você só viu o mar lá de cima.
à tarde o mar acalmou um pouco e o chico deixou-me ir com eles.
é desse lanço que, sem a espectacularidade que de terra proporciona a largada e o arribar do barco, resultam os registos que seguem
(documento escrito em 2010)
como a corrente dominante na costa ocidental portuguesa é de norte, o barco de mar vai em direcção ao norte para que a rede venha trazida pela corrente até próximo do local de largada.
a distância a que é feito o lanço depende do comprimentos das “calas”, cordas que ligam a rede a terra.
as calas são duas:
o reçoeiro – cuja extremidade fica em terra
a mão de barca – que virá para terra com o barco de mar
neste registo é o reçoeiro que vai saindo do barco de mar à medida que nos vamos afastando da costa
por momentos estamos no meio do mar rodeados de silêncios e somos senhores do infinito.
existimos apenas, peixes outros que sobre as águas navegam.
única a sensação.
longe de tudo e tão perto de nada, o pescador é dono e senhor, por uma fracção de tempo, de um universo só seu: a liberdade.
é preciso ir ao mar para sentir que só a terra é falsa

lança-se o arinque do reçoeiro
as calas ligam à manga da rede no “calão”. aí se prendem os “arinques”, bóias que servem de referência quando se ala a rede para terra.
um alar bem feito traz em paralelo o arinque da mão de barca e o arinque do reçoeiro: ou seja a rede tem de vir paralela à costa, para que não o peixe não fuja.
nalgumas redes há ainda quem ponha uma bóia no meio do saco o “calime”.
o calão não é mais que um pau que se coloca no início da manga para a manter aberta, impedindo o peixe de fugir.
interessante é que calão era também o nome dado ao barco que, na xávega mediterrânica e algarvia, levava a rede.
mas falar de tudo isto era um romance
lento o movimento continua.
o saco desce ao mar onde, quem sabe, carapau.
a mão de barca começa a ser lançada ao mar
a manga da mão de barca é lançada ao mar.
a rede está toda na água
o arinque da manga da mão de barca é lançado ao mar.
segue-se agora a cala da mão de barca.
a rede está lançada. virá peixe?
ser pescador artesanal é “lavrar o mar”, como já foi escrito, e não saber da colheita feita a sementeira, acrescento eu.
agora sim, a rede está toda na água
dentro da barca as mãos sobrantes nunca descansando por vezes atentas na corda na outra mão a de barca que do barco mão é quando no caminho para terra o segura o ampara do embate das ondas do grito do mar as mãos são o homem na raiz das coisas na fome de vida no amor no sal no sul onde mãos por mãos esperam outras mãos calam a cala e é de barca a mão que as tange assim na xávega renascem fortes e pujantes ternas e amantes as mãos sobrantes nunca
há no pescador um misto de arte e esperança.
assim se faz a xávega

os movimentos repetem-se agora em sentido inverso.
de regresso é a mão de barca que zune
o motor no máximo. é preciso chegar rápido a terra, onde um tractor já começou a puxar o reçoeiro.
a ida ao mar está a chegar ao fim. a terra aproxima-se.
um homem cresceu entretanto
há quem olhe para os carros, outros para a marca da roupa, outros para os rostos …. outros devoram com os olhos o que não comem
todos buscam o mesmo: conhecer
eu olho para as mãos e sei que aqui, aqui, encontro tudo.
as mãos do pescadores são rudes, gretadas, feridas, mas extremamente limpas.
são mãos que o mar lava e areia esfrega.
são mãos de trabalho, mãos de homens e mulheres que trazem nelas a história de uma vida, de um amor, de uma guerra, de uma faina,….
de uma gana de ganhar a vida no mar
a beleza do sal (120)
“as cartas” de sérgio só
o conjunto “as cartas” faz parte do livro “ATESTADO DE RESIDÊNCIA”
a solidão no molhe norte (1)
o “quase” e “sérgio só”
de sérgio só sabe-se que é setubalense e terá sido grande amigo de luiz pacheco













