conheço
conheço muitos
ladrões do presente
assassinos de futuros
mas
ainda não encontrei
ladrões de passados
talvez por isso
ainda tenha o meu

(torreira; safar das redes; 2013)
conheço
conheço muitos
ladrões do presente
assassinos de futuros
mas
ainda não encontrei
ladrões de passados
talvez por isso
ainda tenha o meu

(torreira; safar das redes; 2013)
como se
como se dança
os corpos
como se música
os sons
como se agora
o antes
como se aqui
o longe
nada mais falso
que o óbvio

safar redes é trabalho de casal
(torreira; safar redes; 2013)
a escolha
para além da janela
a rua
para além do horizonte
o mundo
para além do agora
o amanhã
para além do quero
o posso
para além de mim
a escolha
a tua

(bestida; safar; 2011)
não sei
a música dos corpos
a sinfonia
o esforço conjugado
a equipa
recordo a mesa posta
a família
a meta aproxima-se
o desfecho
não sei do vencedor

(torreira; corrida de chinchorros; 2012)

renascer
impossível reconstruir
a ponte
a tempestade caiu brava
imprevisível
sobram destroços
pedaços de memória
ilusões desfeitas
caminho
costas voltadas
ao que foi
urgente renascer

(torreira; safar caranguejo; 2012)
ainda
estarei onde
os olhos poisarem
serenos de
sou o que regressa
por ser
esta a terra o mar
as gentes
vivo onde estou
sou onde sinto
um sorriso
questiona-me
já por cá
ainda

os “henrique gamelas” pai e filho
(torreira; cabrita baixa; 2012)
inexplicável
não me perguntes
porque escrevo
não me perguntes
porque estou vivo
em tudo
muito pouco
é explicável
inexplicáveis os dias
onde sou
e tudo acontece
nem só a fé
é mistério

o tino a reparar a cabrita
(torreira; 2013)
bem hajam

vivo e escrevo
sempre a direito
por isso recebo
tantas
respostas tortas
bem hajam

(torreira; largar da solheira; 2010)
Breve súmula do evento
A procissão dos barcos pela Ria no Dia de Corpo de Deus, começou a ser realizada em 2010 e partiu da iniciativa do Padre Abílio Araújo – pároco da Torreira. A finalidade é envolver a comunidade piscatória com a comunidade das Quintas, em cuja Capela da Sra da Paz é celebrada a Eucaristia, durante a qual comungam todas as crianças que fizeram a primeira comunhão nesse ano.
Ao princípio da manhã saem da Torreira dois moliceiros, um com as crianças que vão comungar e os seus acompanhantes e outro com o Padre Abílio, o diácono e os acólitos. Os pescadores vão nas bateiras e nas chatas.
No fim da eucaristia realiza-se a procissão entre as Quintas e a Torreira.
Normalmente, no regresso, à frente vai um grupo de acólitos numa bateira, com a cruz e as lanternas, num moliceiro o Padre Abílio com o diácono e o restante grupo de acólitos, as crianças vêm todas juntas noutro moliceiro.
Procurei nesta pequena reportagem, realizada em 2017, filmar a procissão na ria e mostrar como ela pode ser uma festa e uma celebração de fé da comunidade piscatória da Torreira.
(o meu agradecimento a Lucinda Barbosa, Presidente da Junta de Freguesia da Torreira, pelas informações que possibilitaram a construção deste descritivo)
dos deuses

como se da caverna
saído
ofusca-me tanta luz
vejo o bisturi cortar
preciso
os mais ínfimos
detalhes
matando os deuses
sombras caminham
sombras
que sombra fazem
nada mais
como se da caverna
saído
ofusca-me tanta luz
os deuses
também morrem

(torreira; 2011)