sei lá

a rapar na lama para apanhar berbigão
mal me quer
bem me quer
sei lá

apenas a beleza
(torreira; junho; 2016)
sei lá

a rapar na lama para apanhar berbigão
mal me quer
bem me quer
sei lá

apenas a beleza
(torreira; junho; 2016)
também não sei

quando tiver vela será livre
(que coisa é o homem?
carlos drummond de andrade)
que coisa é o homem?
não sei carlos
sei que existe
e tu até disso
duvidavas
conhecer o homem?
tarefa vã me parece
por mais que viva
por mais que tente
entender o homem
uma surpresa
nem sempre boa
a destruir a bondade
que o homem devia ser
que coisa é o homem?
boa pergunta carlos
também não sei

encalhada e bela, nada mais digo dela
hoje sou a ilusão de mim

perco-me de tanto
olhar
de ser tão pouco
quase
quase não ser
o que vejo
não sei se existe
como o vejo
ou se
como o imagino
apetecia-me ser nada
sobre coisa nenhuma
etéreo e efémero
hoje sou a ilusão de mim

(torreira; junho, 2016)
envelope

há quem se sonhe carta
quisera-me eu envelope
e é tanto
se o conseguir

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2014)
as mulheres da torreira

a lurdes (orelhas) varre a bateira e a seguir o orelhas (henrique) bota o breu
elas vendem peixe
são mães
criam filhos e netos
elas vão ao rio
cozinham
lavam a roupa
elas safam redes
tratam da casa
fazem as contas
elas são
as mulheres da torreira
eles são
os homens delas

o casal orelhas e o trabalho de equipa
(torreira; junho, 2016)
os meu amigos da ria

o meu amigo joão magina
os chocos não conhecem
esta bateira
dizia o joão hoje à tarde
a ria anda assim
o berbigão e ameijoa
onde estão?
o choco não entra
ao norte do porto de abrigo
quantas redes?
até quando a ria?

a safar as redes da solheira
(torreira; 15 junho, 2016)
hoje sou âncora

o joão gordo a cirandar
já não procuro as raízes
onde a árvore
encontrou a terra e se fez
bem fundo
na água salobra da ria
no mar da torreira
no nome herdado
não o do cartão
mas a alcunha
mais que cravo
sou gorim
quem se lembra
da ti apolónia
do gorim?
serei o último
nesta terra que os viu nascer
e pouco ou nada
deles sabe
em newark
os cravos gorins são
memória emigrada
os últimos também
hoje sou âncora
varada na areia de uma praia
condenada ao abandono

uma caixa de fruta, o fundo alterado e …. temos uma ciranda e a criatividade do pescador
(torreira; junho, 2016)

o ti henrique cunha a cirandar
ainda há força nos braços
depois de horas
a arrastar a cabrita pelo lodo
a dança da cabrita
é violenta
o fruto é cada vez menos
abundam as conchas
onde antes bivalves
homens mulheres jovens
mais velhos
todos todos caminham
no lodo
parecendo ao longe
que sobre as águas
é tempo agora de cirandar
depois escolher
e no fim vender ao preço
que o comprador disser

o ti henrique cunha a cirandar
(torreira; junho; 2016)
pai e filho
(ensino-te a arte
que me ensinaram
dou-te o amor
que me deram
de pai para filho)

o nuno (filho) enche a cabrita que o pai (nuno) segura
gostava que houvesse
futuro
por onde os meus olhos
ainda
gostava de te dizer
de pai para filho
deixo-te um amor
uma terra uma gente
mas sei
sinto
que me fico
por estas palavras
por este saber que
não há futuro aqui

pai e filho, a mesma arte
(torreira; junho, 2016)
pai e filho têm o mesmo nome, nuno. pai e filho partilham a arte. até quando?
hoje quero aprender

o rico enche a ciranda de berbigão e conchas, por entre as barras hão-de cair as conchas e o o berbigão miúdo
joeira os dias
ciranda as memórias
escolhe
lembra apenas o que
limpa-te das chagas
sofridas
sorri de lembrares
sorrisos
depois de o fazeres
ensina-me
como conseguiste
hoje quero aprender

(torreira; junho, 2016)