o drama

ínfimos somos
o tempo não existe
tu sim
a distância não existe
tu sim
esse o drama

tão pouco somos
(torreira; porto de abrigo)
o drama

ínfimos somos
o tempo não existe
tu sim
a distância não existe
tu sim
esse o drama

tão pouco somos
(torreira; porto de abrigo)
joão manuel brandão (2)

o rosto
a arte
a ria
o pão
sofrido

(torreira; cabrita ata;2012)
joão manuel brandão (1)

das muitas artes de pesca que ainda se praticam na ria e que pude acompanhar de perto, a arte da “cabrita alta”, para apanhar bivalves é, sem dúvida, a mais dura.
com o joão manuel brandão e o joão manuel dias, em 2012, pude ver de perto o sofrimento que provoca no mariscador.
as fotos que vou publicar são do joão manuel brandão e mostram bem o esforço que se lhe espelha no rosto.
coluna, joelhos, braços, pernas, todo o corpo é uma máquina que se desgasta nesta arte duríssima e que, mais dia menos dia, os leva ao bloco operatório ou à fisioterapia.
parca paga, enorme o desgaste, maior a despesa.

(ria de aveiro; torreira; cabrita alta; 2012)

o momento é agora
vive-o

(torreira; regata do s. paio; 2015)
revisito-me

corre a rede por entre os dedos
correm lestos os dias
por entre os dedos
aragem breve subtil
súbito
temporal
de tantos havidos
fui neles o mais
que soube
assisto-me sem
críticas de
revisito-me

com o salvador belo, no meio da ria
(ria de aveiro; torreira; largar da solheira)
assim o vento

marginal aqui, incomodo
sou o que o vento
levará ao mar
depois de tanta terra
o meu tempo é
não foi nem será
é
e serei nele
os que comigo
chego súbito
como quem parte
sem despedida
assim o vento

a bandeira da diferença
(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio, 2014)
pão parco

safar as redes da solheira para a plataforma
no longe quem sabe
o futuro
um barco meses no alto
um salário nos dedos
rasgados pelo gelo
redes cordas espinhas
sonhar amanhã
um destino diverso deste
estagnado na beleza inútil
de onde um pão parco

fosse o peixe limo e boa a pescaria
(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)
é tarde

belíssimas aves estas
conheço os dias
pela inclinação do sol
sobre os ombros
há um sabor a sal
nos lábios
quando te digo
é tarde
e nada se repete

a ria sorri de as saber
(torreira; regata das bateiras à vela; 2010)
há janelas

como não sonhar com vistas assim?
há janelas com ambição
de terem portas
serem casa
sem saberem de paredes
alicerces chão
há janelas que se inventam

quisera da minha janela as visse
(torreira; regata s. paio; 2014)
a capa

o salvador e o falecido pai, ti domingos, cirandam berbigão
não lhes conheces
o rosto o nome
o quanto
à mesa saboreias
o que deles
olhas os registos
estudas contrastes
enquadramentos
outro repasto
para outro prazer
regressarás quando
só porque viste
saboreaste sentiste
mas não lhes sabes
o nome o rosto
a vida
não contas a estória
lês do livro a capa

as cores da ria não dizem tudo das suas gentes
(torreira; cirandar)