postais da ria (163)


em torno de mim

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impossível este silêncio
este momento sem tempo
quase um quadro
onde nada perfeito é

desvendar os olhos
imaginar os gestos
imperfeitos de humanos
o movimento cadenciado
das mãos o trabalho
a carícia ou a sua ausência

o vento sorri
e eu sou o que resta de mim
o que fizeram do que fui

o círculo
lembro-me de o ter escrito
algures
por mais largo que seja
fecha-se sempre

as pontas começam a unir-se

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(murtosa; cais do bico)

postais da ria (160)


nem isso

(TABACARIA

Não sou nada. 
Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
………………. 

Álvaro de Campos)

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sequer os sonhos
apenas estas linhas
perdidas no branco

esta sombra
coisa nenhuma
a esvair-se

ao fundo
muito ao fundo
uma voz

nem isso

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(torreira)

postais da ria (158)


o meu amigo raul

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como se houvera um caminho
na ria e ele o soubesse
é em direcção ao mar sabemo-lo

parca paga para tão pouco
mesmo se muito
não sustenta família

é no alto mar
que fazem vida os homens daqui

a ria é cada dia mais
para quem espera partir

ou regressou
acabado o tempo
de partir de novo

o caminho raul
é para a barra

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(torreira)

postais da ria (157)


a magia da ria

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há imagens que nos pregam
ao chão
que nos prendem os olhos

as cores as gentes o céu
o estar ali
deslumbrado com tanto

a ria por vezes é pura magia
como senti no momento em que
não fui capaz de para de disparar
enquanto que pensava

por mais que faça
nunca nada será mais belo
que o estar aqui

assim sintas a ria um dia

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o henrique e o padas safam as redes da solheira, o léo, na bateira do pai assiste

(torreira; o safar das redes)

postais da ria (156)


abril vinte e cinco e os cravos

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dos cravos não consta
que espinhos
não os temas por isso

não tos vi hoje na lapela
e admiro-te
na sinceridade de os não
teres posto

aí onde estás lustroso
sorridente
aos cravos o deves

ou será que aí estarias
mesmo sem eles
sem democracia?

nunca se sabe

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(ria de aveiro; torreira)