hoje sou sonho

quisera-me assim
quase nada
presença ausente
qualquer coisa
entre uma ave
e a música
hoje sou sonho

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2010)
hoje sou sonho

quisera-me assim
quase nada
presença ausente
qualquer coisa
entre uma ave
e a música
hoje sou sonho

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2010)
hoje sou nuvem

sei que desconhecido
é o amanhã
todos os dias podem ser
tudo
e isso é existir
sei que o fim
é o fim
do desconhecido
por isso hoje
é sempre e eu
hoje sou nuvem

(torreira)
em torno de mim

impossível este silêncio
este momento sem tempo
quase um quadro
onde nada perfeito é
desvendar os olhos
imaginar os gestos
imperfeitos de humanos
o movimento cadenciado
das mãos o trabalho
a carícia ou a sua ausência
o vento sorri
e eu sou o que resta de mim
o que fizeram do que fui
o círculo
lembro-me de o ter escrito
algures
por mais largo que seja
fecha-se sempre
as pontas começam a unir-se

(murtosa; cais do bico)
da vida

depois de safadas as redes regressam à ré
o meu amigo henrique
pardilhoeiro
na ria é assim
nome próprio dão os pais
alcunha apelido
é coisa da vida

arrumadas à ré, prontas a serem largadas quando da maré
(torreira; porto de abrigo)
assim sejam

Foram os escolhidos
Almoçaram os mortos
Mais lembrados
Iludiram-se as ausências
Lavaram-se mãos e olhos
Irmãos pais primos tios
Assim se quiseram
assim sejam

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2014)
nem isso
(TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
……………….
Álvaro de Campos)

sequer os sonhos
apenas estas linhas
perdidas no branco
esta sombra
coisa nenhuma
a esvair-se
ao fundo
muito ao fundo
uma voz
nem isso

(torreira)
vagueio-me

sento-me em mim
e olho tudo como se
pela última vez
a minha voz
é não a ter
e escrevo porque
não tenho nada
de novo para dizer
vagueio-me

(torreira; porto de abrigo)
o meu amigo raul

como se houvera um caminho
na ria e ele o soubesse
é em direcção ao mar sabemo-lo
parca paga para tão pouco
mesmo se muito
não sustenta família
é no alto mar
que fazem vida os homens daqui
a ria é cada dia mais
para quem espera partir
ou regressou
acabado o tempo
de partir de novo
o caminho raul
é para a barra

(torreira)
a magia da ria

há imagens que nos pregam
ao chão
que nos prendem os olhos
as cores as gentes o céu
o estar ali
deslumbrado com tanto
a ria por vezes é pura magia
como senti no momento em que
não fui capaz de para de disparar
enquanto que pensava
por mais que faça
nunca nada será mais belo
que o estar aqui
assim sintas a ria um dia

o henrique e o padas safam as redes da solheira, o léo, na bateira do pai assiste
(torreira; o safar das redes)
abril vinte e cinco e os cravos

dos cravos não consta
que espinhos
não os temas por isso
não tos vi hoje na lapela
e admiro-te
na sinceridade de os não
teres posto
aí onde estás lustroso
sorridente
aos cravos o deves
ou será que aí estarias
mesmo sem eles
sem democracia?
nunca se sabe

(ria de aveiro; torreira)