mar
memória de 06/01/2013
a morte do fotógrafo
foi a enterrar hoje em setúbal terra onde nasceu eu também e fotografou com o coração o meu primo zé pinho onde quer que estejas zé regista a eternidade para a eternidade aqui fica uma imagem do mar onde sado morre para renascer imensamente maior assim tu abraço forte guardo o livro de fotos que publicaste os postais de natal que eram fotos tuas guardo-te

a prenda
meticulosamente
começou a despi-la
os dedos prendendo-se
nas pequenas coisas
desabituados de
uma a uma
as peças
dispostas com esmero
na cadeira mais próxima
até que
o corpo surgiu inteiro
e puro
limpo de disfarces
admirou-lhe a perfeição
contemplou-a absorto
durante alguns segundos
tinha conseguido
depois
depois entregou a boneca à filha
para que lhe vestisse o conjunto novo
que a mãe momentaneamente ausente
lhe tinha oferecido pelo natal
“Poemar na tamargueira” (1)

da afirmação
longe de mim
trago no corpo
o sal do verão
bailes de mar
nos olhos
estou vivo
outono dentro de outono
continuo ainda
a ser corpo
virá a chuva
os dias mais curtos
o céu mais carregado
a angústia serena
agora
virá também o oiro
semeado nas vinhas
que não verei
porque longe do mar
tudo
o que é longe do mar
é longe de mim
até estas palavras
o são cada vez mais
(torreira; sol outonal)









