(murtosa; regata do emigrante; cais do bico; 2007)
moliceiros
os moliceiros têm vela (485)
O Braco Moliceiro: património do proprietário

De acordo com a Direcção Geral do Património Cultural existem três tipologias caracterizadoras do que pode ser classificado como Património Cultural Nacional:
Imóvel
Móvel
Imaterial
Partindo destas definições da DGPC gostaria de discorrer sobre o “Anúncio n.º 272/2022, de 15 de dezembro”/ Diário da República n.º 240/2022, Série II de 2022-12-15, páginas 82 – 82 , em cujo Sumário se pode ler: “Inscrição (salvaguarda urgente) do «Barco Moliceiro: Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro» no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
Com este anúncio lançaram-se foguetes, escreveram-se editoriais e fizeram-se proclamações: O Barco Moliceiro é Património Cultural Nacional, disse-se e escreveu-se.
Bom seria se verdade fosse, mas basta ler o anúncio e há lá “:” que estragam tudo. Dois pontos, meus amigos, não um “e”. O que foi inscrito no património nacional foi a «Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro», nem poderia ser outra coisa, dado tratar-se da inscrição no Património Cultural Imaterial.
O moliceiro, a ser inscrito como muitos, e eu também, queremos, teria de ser no Património Cultural Móvel, pelo menos enquanto existir.
Há que reconhecer que o título, que é o constante da candidatura, é que provoca a confusão, permito-me deduzir que propositadamente, e a isso dedicarei algumas linhas que, espero, vos sejam de algum proveito.
É da MatrizPCI da inscrição – ver Nota no final -, documento caracterizador exaustivo do pretendido, http://www.matrizpci.dgpc.pt/MatrizPCI.Web/InventarioNacional/DetalheFicha/818?dirPesq=0 que partirei para tirar algumas ilacções.
1. Não sendo o Moliceiro objecto de inscrição é feita na “Caracterização desenvolvida” uma descrição detalhada e bem pormenorizada do Barco Moliceiro tradicional para, mais à frente, bastante mais, se descreverem umas adaptações – “ Adaptações construtivas do Barco Moliceiro para a actividade turística … alguns ajustes e a adaptações construtivas em prol da segurança dos turistas, por um lado, e para permitir a navegação nos canais urbanos da Ria de Aveiro…” . Deste modo, e contra o pensamento de muitos, e meu também, escreve-se que os barcos que circulam nos canais também são “moliceiros”. Ou seja, não é por acaso, que numa candidatura que somente pretende inscrever a «Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro» no Património Cultural Imaterial Nacional se escreva tanto sobre o Moliceiro. Como dizia o meu tio avô César Cravo (gorim) : gente de bico amarelo – os murtoseiros entendem-me. Deixo a interpretação deste procedimento ao critério de cada leitor.
2. Escreve-se ainda, na mesma “Caracterização desenvolvida”, que “Vários autores reconhecem que a adaptação do Barco Moliceiro para as actividades turísticas foi crucial para ele tenha chegado aos nossos dias.”. Que Moliceiro? Devem referir-se aos barcos que circulam nos canais, e que tão subrepticiamente pretendem chamar “moliceiros” não aos Moliceiros Tradicionais que, se têm sobrevivido, tem sido à custa do esforço financeiro dos seus proprietários – quantos são de Aveiro? Honra seja feita à Dra Maria Emília Prado e Castro, a moliceirinha como lhe chamo – naturais da zona norte da Ria de Aveiro, da Murtosa e da Torreira. Os apoios que recebem por participar nas regatas ajudam à amanhação anual do Barco Moliceiro, mas não chegam para cobrir as despesas.
3. Actualmente a construção de um Barco Moliceiro para fazer turismo, já não há moliço e os passeios turísticos em ria aberta são a única forma de tentar rentabilizar o investimento, depende da autorização da DGAM (Direcção-Geral da Autoridade Marítima), que exige planos e cortes e cálculos, como para qualquer outra embarcação que se dedique ao turismo. Os custos destes processos, só os soube de ouvido, porque quando enviei um email à entidade pedir informação sobre todos os procedimentos e custos – nele dizia pretendia mandar construir um para fins turísticos – não obtive qualquer resposta. Por isso não os insiro neste artigo. Mas fica a pergunta: se há uma inscrição no Património Cultural Imaterial da «Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro» tendo em vista a sua “(salvaguarda urgente) “ – como se escreve no anúncio supra -, será que vão deixar de ser necessários e a “«Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro» efectivamente salvaguardada? Fica a pergunta.
Resumindo
# O barco moliceiro não é Património Cultural Nacional
# Os barcos que andam nos canais são “moliceiros adaptados”
# A carpintaria naval da Ria de Aveiro só ficará salvaguardada se for alterada a legislação em vigor e não seja necessário projecto de construção
Estranhamento
Se a minha análise do documento estiver correcta – estou aberto ao contraditório – estranho que estudiosos da Ria e seus barcos, como a Dra Ana Maria Lopes, o Eng. Senos da Fonseca e a investigadora Etelvina Almeida, cujos trabalhos fazem parte da bibliografia do processo, ainda se não tenham manifestado
(Nota)
Como consultar o documento MatrizPCI da inscrição
Fazer uma pesquisa no Google com “Matriz PCI”
Na barra de em branco escrever “Moliceiro”
Clicar na figura que surge com um moliceiro em construção e têm o processo aberto
no jornal “Notícias de Aveiro”
os moliceiros têm vela (484)
os moliceiros têm vela (483)
os moliceiros têm vela (481)
os moliceiros têm vela (480)
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os moliceiros têm vela (478)
os moliceiros têm vela (477)
era uma vez no oeste
falarei ainda do silêncio da memória de ter sido do sopro no teu ouvido de dois corpos nus de duas sedes de duas fomes de um só desejo no mesmo beijo falarei ainda do silêncio até que não me oiçam até que dentro de ti me sintas e seja o nosso o grito
(murtosa; regata do bico; 2010)

















