construção de um moliceiro – 31 de agosto


era uma vez “Um sonho”

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foram muitos os que hoje vieram assistir ao bota-abaixo do moliceiro “Um sonho”, fotógrafos, amantes do moliceiro, a televisão, autoridades locais, curiosos, gente da terra e de fora…

o barco passou nas provas e regressou de uma breve viagem na ria, em que o mestre zé rito mostrou o que valiam: ele e o barco que acabara de fazer.

queria lembrar aqui que, em 2015 e 2016, 3 novos moliceiros tradicionais foram construídos:

2015

– o “Marco Silva”, feito pelo arrais/mestre marco silva, com o apoio do mestre firmino tavares, filho do mestre agostinho tavares de pardelhó.

2016

– o “Bulhas” feito pelo mestre antónio esteves, da escola do mestre henrique lavoura, também de pardelhó

– o “Um sonho”, feito pelo mestre zé rito, da escola da família raimundo, da murtosa.

são dois anos de luxo para a ria de aveiro. há muito que se não assistia a esta intensidade de construção de moliceiros.

convém lembrar que todos os custos com a construção, pinturas, palamenta e licenças, foram suportadas pelos proprietários, sem quaisquer apoios oficiais.

mais que um barco, o moliceiro, repito-o e repeti-lo-ei tantas vezes quantas as necessárias, é a mais forte expressão da cultura de um povo e um barco único no mundo – o mais belo de todos.

desculpem então se pergunto, e perguntarei tantas vezes quantas as necessárias, porque não é apoiada financeiramente a sua construção?

ao menos para compensar o tempo de antena na televisão.

mas, eu sou dos tais fotógrafos que só aparecem por aqui em certas alturas, nas férias, não têm nada a ver com a terra e só fazem perguntas estúpidas.

“tende-vos calmos que estou de partida.”

viver é ter coisas para fazer e eu tenho muitas para fazer ainda.

parabéns zé rito, boa sorte zé rebelo, obrigado amigos com quem reparti estas últimas semanas e me fizeram sentir mais um entre vós.

estou vivo e recomendo-me.

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(torreira; 31 de agosto de 2016)

(nota: as crónicas que têm acompanhado este diário, são da minha autoria e assumo por elas a inteira responsabilidade, independentemente de quem está nas fotografias ou é nelas identificado. as minhas opiniões são minhas e de mais ninguém)

construção de um moliceiro (16)


30 de agosto

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este registo foi feito ao princípio da manhã, ainda o moliceiro estava virado sobre bombordo. depois foi virado sobre estibordo e muitas foram as pequenas tarefas levadas a cabo durante o dia: calafetar, pintar, decorar, preparar o mastro, pintar falcas …. enfim uma infinidade de pequenas coisas que, quase sempre, tão portuguêsmente na
véspera, são o começo do fim da obra.

quis com este registo fixar os dois símbolos da murtosa: o moliceiro e a bicicleta. qual o murtoseiro que não se revê neles e, com eles; relembra histórias da sua vida?

foi o que aconteceu enquanto o mestre zé rito, o avelino e o setenove construíam o moliceiro. o josé oliveira e o pai, necas lamarão, pintavam as decorações. sim, eles foram os principais obreiros.

todos os dias nos encontrávamos ali, para o que desse e viesse. e, para além da mão que se ia dando quando necessário, vinha tanta coisa à conversa, foram tantas as histórias, as piadas, uma companhia que, ao mesmo tempo, se fazia aos que davam no duro.

enquanto o moliceiro era construído outras histórias se construíram.

vieram espanhóis, franceses, alemães, holandeses, portugueses emigrados, antigos moliceiros …. e todos ali estiveram como se em casa.

aconteça o que acontecer é impossível esquecer estes dias em que de manhã à tarde se conviveu com os mestres e a obra.

amanhã às 15 horas o “novo filho da ria” – frase do setenove – vai beijar a mãe. seremos muitos a assistir e a sentir que um pouco de nós vai com ele também.

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(torreira; 30 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (15)


29 de agosto

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depois de almoço chegámos ao estaleiro quase ao mesmo tempo, eu e o mestre zé rito. os dois e um moliceiro quase acabado.

com a rebarbadora o mestre lixava e depois afagava – interessante esta palavra – a madeira com a mão, para sentir a perfeição do trabalho efectuado.

palavras poucas, ouvia-se a rebarbadora, corria no ar uma poeira fina de madeira e o fundo do moliceiro adquiria um face nova.

havia ainda muito para fazer: calafetar, aparafusar, betumar, colocar pequenas cavilhas de madeira em pequenos furos…. tudo coisas miúdas, mas muitas.

ao longo da tarde foram chegando os amigos e o material que fazia falta. o mestre continuava sozinho, o seu trabalho enquanto a conversa o envolvia e amenizava a dureza da exposição ao sol.

na edição deste registo, mais que um momento queria transmitir um sentimento: o da solidão do mestre.

não sei se o consegui, mas depois de ter estado quase todo o dia no estaleiro só tinha uma frase para descrever o dia de hoje:

a solidão do mestre

espero que a sintam

NOTA – o bota- abaixo é pelas 15 horas, de quarta-feira dia 31

(torreira; 29 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (14)


28 de agosto

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o dia de fechar o fundo do moliceiro.

como se pode ver no registo de ontem, faltava colocar tábuas no fundo do moliceiro e fazer assim o fecho do fundo.

o olhar sabedor do mestre zé rito levou-o a escolher, do armazém, as tábuas de dimensões ideais para o efeito.

depois procedeu ao seu afeiçoamento de acordo com o método artesanal, que eu designo de “aproximações sucessivas”. é interessante ver o que separa os procedimentos científicos dos procedimentos artesanais.

sentado num banco/tronco ia espreitando pelas aberturas, ainda existentes no fundo, e por elas via os dois moliceiros que estavam ancorados na ria em frente ao estaleiro. eram janelas ideais para fotografar.

levantava-me de vez em quando e fazia uns registos.

a pouco e pouco fui ficando sem janelas, o fechar do fundo tapava-me a vista: um moliceiro novo enchia-me agora todo o campo visual. e isto também era novo.

neste registo o avelino ajuda a colocar a última tábua. quando ficou no sítio, levantei-me e saí.

muito trabalho há ainda por fazer. desde meter cavilhas, emassar, pintar ….. e voltar a virar de novo o barco para ser acabada a decoração, ser cheio de água e a madeira “fechar”.

amanhã também é dia, mas há cada vez menos dias.

(torreira; 28 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (13)


27 de agosto

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porque hoje é sábado e se avizinha o s. paio, muito mais gente se reuniu no estaleiro em torno do moliceiro em construção.

a meio da tarde, os mestres prosseguiam o trabalho quando, de repente, do meio dos amigos se ouve uma voz elevar-se:

– eh zé! com tanta gente aqui porque não aproveitas para virar o barco?

em pouco tempo parou a pintura e começaram os preparativos para virar o barco. esperava-se que, desta vez, viesse uma máquina para o fazer, mas os homens mandam mais.

seriam cerca da 17h30m quando o barco ficou virado – quase na vertical transversa – escorado a bombordo e estibordo, de forma a que se pudessem colocar as tábuas de fundo, que faltam para fechar totalmente o barco. não sei se as colocaram ainda hoje,,,, tudo é possível.

no final, comentava com um amigo: alguns dos que ajudaram, nunca imaginaram que o viriam a fazer de novo.

chamei o ti alfredo do táxi – 77 anos de vida repartidos entre a torreira e os estados unidos – e perguntei-lhe se contava, alguma vez voltar a fazer isto. a resposta, foi rápida e simples:

– foi a primeira vez que ajudei a virar um moliceiro novo.

para mim, pessoalmente, esta foto tem ainda outro valor, porque se houve um gorim que fez o registo, houve outro que ajudou a virar o barco, o meu primo domingos.

em torno de um moliceiro o que não pode acontecer!

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(torreira; 27 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (12)


26 de agosto

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em todos os processos há sempre alguém, por vezes muitos, cuja presença silenciosa e trabalho dedicado, torna a obra possível. ninguém fala deles, ninguém deles se lembra, mas sem eles não teria havido obra.

chama-se avelino, para que conste, mas poderia ter muitos nomes, tantos quantos os que não deixaram o nome ligado a qualquer obra.

pinta, serra, varre, ajuda em tudo e em tudo deixa um pouco de si. fala pouco, sorri por vezes, não pára quase nunca.

neste registo, está a pintar o leme que ajudou a fazer, deixando o círculo que o pintor preencherá com o símbolo do mestre construtor.

já pintou as falcas, irá dar bondex no interior do barco, fará o que o mestre lhe pedir. porque ambos se conhecem o suficiente para saberem até onde cada um pode ir.

o mestre zé rito continua a fazer peças de madeira, os pintores decoram bordaduras, painéis, dão ao moliceiro a vida que o torna mais belo ainda.

os que assistimos, e somos sempre muitos, fazemos o que podemos quando nos pedem ou sentimos que podemos ser úteis.

contam-se histórias de vidas e há em todos, excepto no mestre zé rito, um certo nervosismo quando se fala na data de conclusão da obra.

o mestre continua a sorrir, a trabalhar e, quarta-feira, o barco irá pela primeira vez beijar a ria. ele sabe-o e isso basta.

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(torreira; 26 de agosto de 2016)

cosntrução de um moliceiro (9)


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22 de agosto

começou a decoração do moliceiro.

para além da pintura, a característica identificadora do moliceiro é a decoração, nomeadamente a dos painéis da proa e da ré.

há mais de 25 anos que o pintor josé oliveira executa decorações de moliceiros, é ele que decora este moliceiro.

no registo de hoje pode ver-se já o desenho do painel da ré de bombordo, com alguma decoração pintada, enquanto josé oliveira inicia trabalho no painel de estibordo.

estamos em fase de acabamentos, o trabalho só voltará a envolver mais gente quando o barco tiver de ser voltado – meia querena – para serem colocadas as últimas tábuas de fundo.

até ao final, o novo moliceiro continuará a ser local de visitas diárias e de reunião de muitos.

(torreira; 22 de agosto, de 2016)

construção de um moliceiro (8)


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21 de agosto

hoje acabou-se o fecho dos costados do moliceiro.

neste registo o ti alfredo do táxi – porque foi dono do primeiro táxi da torreira, antes de emigrar – segura a tábua que o mestre zé rito aplaina e irá ser colocada na parte inferior da proa, a estibordo.

para fechar totalmente o barco, ficam só por colocar as tábuas de fecho do fundo.

amanhã começa o trabalho de decoração do barco, a cargo do pintor zé oliveira que, há cerca de 25 anos, decora moliceiros e para os quais vai inventando os temas que tão bem caracterizam os painéis. vamos ver o que sai desta vez.

quanto à colocação da tábua, depois de afeiçoada, não fiz qualquer registo porque…. fui membro da equipa do turno que a aguentou enquanto o mestre a fixava.

(torreira; 21 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (7)


20 de agosto

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hoje começou a pintura do moliceiro.

a elegância da forma, as cores com que é pintado, a decoração global do barco, fazem dele qualquer coisa de único e extraordinariamente belo.

seja então hoje a celebração do barco e deixemos que ele nos encha de alegria e de cor.

os sorrisos espalharam-se pelos rostos de todos os presentes: o pincel e o rolo começaram a cobrir a madeira crua e o barco tornou-se coisa viva.

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(torreira; 20 de agosto; 2016)

construção de um moliceiro (6)


19 de agosto

hoje o mestre zé rito, andou entre o acabamento da proa e o leme e pequenas tarefas de aperfeiçoamento. do varrer ao polir, de tudo se fez um pouco e os amigos ajudavam onde era preciso a cada momento.

momentos houve, como todos os dias, em que o mestre trabalhava e conversava com os amigos, dizia piadas e continuava. a obra é um acto de contentamento e não o resultado de um sacrifício.

emigrantes, reformados, pescadores, turistas …. muitos foram os que por ali passaram, os que ali ficam e convivem.

dos muitos momentos vividos ao longo do dia, fica o registo último que fiz antes de os deixar: o colocar do último “cunho” do castelo da proa, depois do “bertente”.

como já escrevi, este não é um diário técnico, nem o pretende ser, é isso sim, uma memória dos dias vividos junto à ria à mesa de um moliceiro em construção.

como disse o setenove, em torno ” de mais um filho da ria”.

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o mestre zé rito coloca o último “cunho”

(torreira, 19 de agosto de 2016)