os moliceiros têm vela (223)


a fotografia, a tradição, a memória e os interesses

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a limpidez da memória no registo do momento

não há nada pior que um povo sem história, não é povo sequer. e o que é a história senão o somatório das memórias preservadas?

a fotografia é, desde que surgiu, mais um instrumento de construção da história, porque produtora de memória, com a relevância de ser um registo visual e de impacto.

desdenhar da fotografia é desdenhar da história e da memória. é desdenhar do povo e da sua cultura.

sujar o campo visual da reconstrução da memória é sujar a memória do registo intemporal, quem dera, do momento.

entendam agora porque sou contra o acompanhamento da “regata da ria” por praticantes de kite surf: sujam a memória, impedem o registo limpo de um tempo recuperado.

virá o tempo em que perguntarão porque se estragaram momentos tão belos. mas será tarde para impedir a ganância de alguns, a ignorância de outros, a falta de cultura de muitos e a indiferença da maioria.

poderíamos cantar aqui, assim: assim se desfaz portugal!

0 ahcravo_DSC_1442_regata bico 2012, a partida

é tão frágil esta beleza perante a ignorância

(murtosa; regata do bico; 2012)

os moliceiros têm vela (222)


até amanhã ao sol

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estou cansado
de tantas lutas
tantos anos

dou-me porque sim

porque sou
esta cabeça lucidamente
tonta de tanto sonho

continuo a não ser daqui
sem saber de onde sou

mas continuo
não precisam de contar
comigo eu conto

pararei quando
chegar o dia de parar
de vez de vez

até amanhã ao sol

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(torreira; regata do s. paio; 2015)

os moliceiros têm vela (221)


parabéns “marco silva”

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o “marco silva” a caminho da sua primeira vitória: “regata da ria, 2015”

o moliceiro “marco silva” faz hoje um ano. parabéns ao mestre, parabéns ao barco, parabéns a todos os que gostam de moliceiros e lutam pela tradição dos moliceiros à vela.

relembro o vídeo que fiz do bota-abaixo

mas, hoje, estão de parabéns todos os moliceiros que participaram na regata de 2015 e que, pelas suas prestações, tiveram direito a receber prémios de classificação na regata e de pinturas.

é que, finalmente foram pagos. é verdade. depois de ter divulgado o atraso nos pagamentos em publicação no facebook no dia 12 de maio (https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10201722706465353&set=gm.1739693149645723&type=3&theater) e no meu blog (https://ahcravo.com/2016/05/12/os-moliceiros-tem-vela-210/ ) houve quem enviasse email para a comunidade intermunicipal da ria de aveiro denunciando o que se passava.

não interessa quem foram, não interessa quantos foram, sabem os que o fizeram, como sabem os que nada fizeram.

a comunidade intermunicipal da região de aveiro, através de diligências do seu secretário-geral, providenciou o pagamento em falta, não porque ainda não o tivesse feito, mas porque a associação a quem entregou a organização não o fez. Informou também que seria adoptado novo modelo de organização da regata e pagamentos.

neste momento está tudo regularizado e, esperemos, o novo modo de procedimentos, não permita novos atrasos.

espero que não, para bem de todos e sossego de muitos.

amigos, valeu a pena.

termino como comecei, parabéns “marco silva”, pelo aniversário, parabéns a todos os moliceiros que continuam na luta pela tradição.

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e o “marco silva” ganhou a primeira regata em que participou

os moliceiros têm vela (220)


hoje estou longe

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

o ti virgílio no sara e cristina

na terra ficaram poucos
que de pobre
futuro lhes negava

pouco levaram que
nada tinham
a não ser a memória

partiram muitos
mais que os que ficaram
à espera de vez
ou do regresso dos que
tinham partido

onde quer que estejam
estão sempre aqui
nestas palavras e imagens
onde também eu

abraço-os a todos
porque como sempre

hoje estou longe

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

um senhor no seu moliceirinho, o ti virgílio

(murtosa; regata do bico; 2008)

os moliceiros têm vela (219)


da memória e das palavras

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o ti zé rebeço

olho para a foto do ti zé rebeço e lembro-me dos meus tempos de canalha e de quando ia comprar leite a casa dos pais dele, mesmo em frente à dos meus.

e a palavra “canalha”, lembra-me outra que o meu tio avô, césar gorim, costumava usar numa frase que amiúde lhe ouvia – “são uns garotos” – e que ainda ouço na boca do ti zé rebeço.

na murtosa, quando as pessoas diziam “canalha”, referiam-se à “miudagem” e quando se usava a palavra “garoto”, era para classificar aqueles que usando calças se julgavam homens e faltavam à palavra dada, aldrabavam, enfim…….

hoje, se digo “garoto” refiro-me a um miúdo, e se digo “canalha” é insulto e toda a gente o sabe.

voltando ao ti zé rebeço e à memória de um tempo, usando as palavras dessa época e da terra, queria dizer:

– cada vez há menos canalha por aí e garotos, infelizmente, ainda continuam a abundar
(torreira; regata da ria; 2011)

os moliceiros têm vela (218)


assassino

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pelo mesmo nome responde o homem e o barco

enorme o barco
maior o homem

respondem pelo
mesmo nome
e não sei quem
primeiro foi

se o barco
se o homem

morrerá o barco
com ele o homem

digo então
que quem matar o barco
mata o homem

não importa
se por ignorância
ou incúria

quem o fizer
será sempre

assassino

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sempre pronto para a brincadeira, um moliceiro com paixão, o ti abílio

(torreira; regata da ria ; 2011)

os moliceiros têm vela (217)


QUEM LUCRA COM A REGATA DA RIA?

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a regata da ria, a mais importante das 3 regatas de moliceiros que se realizam todos os anos, envolve 3 “actores”:

1 – o promotor da regata (que a financia)

2 – o organizador da regata (que paga os seguros, um almoço e um jantar aos moliceiros, as taças e distribui os prémios pecuniários)

3 -os moliceiros (pagam as despesas de manutenção dos barcos- pintura de painéis e reparações para a regata, custos que não são cobertos na totalidade pelos valores que recebem do organizador)

ou seja, o promotor dá dinheiro ao organizador, que paga aos moliceiros.

o interessante no meio deste processo é que quem organiza, gasta pouco e ganha muito –  DA REGATA DE 2015 AINDA CONTINUA A HAVER DINHEIRO POR PAGAR AOS MOLICEIROS – e os  moliceiros, gastam muito e ganham pouco.

será que ninguém vê isto? será justo? o que podem os moliceiros fazer para que as coisas passem a ser ao contrário: quem gasta pouco, que ganhe pouco (a organização), quem gasta muito que ganhe muito (os moliceiros).

será que os promotores não sabem o que se passa? quem é que anda a lucrar com a regata da ria?

os moliceiros é que não.

PAGUEM O QUE DEVEM AOS MOLICEIROS E REVEJAM A DISTRIBUIÇÃO DAS VERBAS

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(torreira; regata do s. paio; 2014)

os moliceiros têm vela (216)


hoje continuo a ser eu

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o moliceiro “zé rito”

chegar ao mar
dizer bom dia à ria
ver sentir ser

esquecer tudo
viver apenas
o que os olhos

o deslumbramento
é breve

sinto na carne
a faca que me espetaram
e tudo se esvai

soma-se o que oiço
a exploração dos pescadores
o ludíbrio dos moliceiros

a verdade é mais forte
que toda a beleza
e o instante passou

por muito que me doa
hoje continuo a ser eu

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manejam os barcos com a mesma arte com que são manejados

(murtosa; regata do bico; 2009)