hoje é dia oito de abril
de dois mil e vinte e cinco
um dia como qualquer outro
quando todos os dias
forem iguais a todos os dias
então um desses dias
será o meu dia
(fazer estopa; ria de aveiro; torreira; 2018)
(guache de ana feijão; 45x29cm; março de 2025)
o asssassínio telecomandado
a destruição minuciosa precisa
num novo deserto tendas
erguidas sobre escombros
deixados pelos bárbaros
modernos sofisticados
as crianças o futuro os velhos
o passado restos de corpos
inidentificáveis ensacados
chorados roubado tempo
a voz mais forte que os gritos dá
ordens comanda exércitos cegos
raiva e ódio não é gente o outro
ardem-me os olhos por gaza
ardem corpos em gaza
a humanidade arde em gaza
uma bomba caiu
dentro do poema
palavras estilhaçadas
mortas irreconhecíveis
escorrem sangue
é branco o sangue
das palavras
soma de todas as cores
a paz também
uma bomba caiu
dentro do poema
há letras perdidas
desaparecidas
amputadas mortas
é negro o sangue
das letras
ausência de todas as cores
a guerra também
(por caminhos de lama e ria; torreira; 2010)
lembro-me da terra
à segunda a feira
dos fabricos caseiros
do quintal e da capoeira
as contrafacções e os bons preços
os vendedores a apregoar
vi um na assembleia
a negociar
hábitos de feira
a régua e esquadro traçadas
as ruas numeradas
a linha de caminho de ferro
e o mar do outro lado
o jogo e unamuno
as férias o verão
os pescadores
nunca ali vi o sol pôr-se
só lhe sei a cor de dia
nunca o vi verde
(recriação da xávega com bois; silvalde; espinho; 2012)