a cama
por mais larga que seja
deito-me sempre
do lado da janela
na beira do colchão
do lado esquerdo
até a dormir fujo
do centro

(sal do mar; rer; armazéns de lavos; 2017)
NÃO
assim em maiúsculos inusuais
como um grito de revolta
pedrada nas janelas dos dias
NÃO
assim em maiúsculos inusuais
como um grito de revolta
pedrada nas janelas dos dias
NÃO
posso calar tudo o que dentro
de mim ferve e se impõe
contra o silêncio a prepotência
NÃO
o ter armas poder dinheiro NÃO
tem força de lei mas sim
marginais loucos engravatados
NÃO
aceito a conversão de dólares
em crianças assassinadas
o lucro cego pago com sangue
NÃO
chamem-me perigoso terrorista
escrevam o meu nome
a vermelho mas ESCREVAM que
NÃO me verguei nunca
NÃO
ao GENOCÍDIO em GAZA
ao governo de netanyahu
NÃO à GUERRA SIM à PAZ
PALESTINA LIVRE
(regata de bateiras à vela; s. paio; torreira; 2017)
não sabe o rio do leito
por ele corre sem o saber
vemos e sabemos o como
o porquê é óbvio e obscuro
de sangue morte e terror
se maquilham palhaços
falsos imperadores
sorriem ante o horror
reis que nus vão foram
muitas vezes eleitos
o bobo abraça o tirano
sonham-se maiores
sádicos poderosos são
mercadores de ódio
não sabe o rio do leito
não sabemos nós da foz
(skimming; buarcos; tamargueira; 2011)
no dia 27 de setembro de 2025 decorreu na livraria do largo, na figueira da foz, uma apresentação do livro “noturnos” de rui sobral, do acontecido aqui fica o registo vídeo possível obrigado paulo delgado e luísa bonito
escolho escolher
escolho o que como
o que bebo sei o que posso
onde vou e quando
eu na minha inteireza sou
rocha antiga firme
em convicções e causas
não conheço quem
possa escolher um povo
que não o escolha
é pescadinha de rabo
na boca e isso
só com arroz de tomate
(xávega; zorra carregada com barco em fundo; torreira; 2013)
cavar fundo
revolver a terra
cavar mais fundo
abrir pedras
na raiz da palavra
o coração do poeta
saboreio o fruto
digo o poema
(xávega; rede seca carregada a preceito; o voo do saco; torreira; 2013)
nota: depois de ter secado, estendida no areal, a rede é colocada sobre a zorra – estrado de tábuas pregadas sobre toros, com uma corda para poder ser traccionada – com a seguinte sequência : mão de barca; saco; reçoeiro (terminologia da torreira)