sou nada
serei sempre nada
prazer
de ser assim
(xávega; aparelhar; praia da leirosa; 2019)
da poesia
a poesia casa
o poeta dentro da casa
pensa-se diz-se é
o imaginado
a poesia janela
o poeta espreita o mundo
pela janela e retira-se
para dentro da casa
escreve respirou ar livre
a poesia porta
o poeta sai de casa entra
no mundo pensa-o
escreve-o descreve-o
cidadão da palavra
a poesia epígrafe
ou será epitáfio
esconde o medo do poeta
sob a capa do outro
o consagrado o inquestionável
teme pelo poeta
(moliceiros; s. paio; torreira; 2012)
(guache de ana feijão; 45x29cm; março de 2025)
o asssassínio telecomandado
a destruição minuciosa precisa
num novo deserto tendas
erguidas sobre escombros
deixados pelos bárbaros
modernos sofisticados
as crianças o futuro os velhos
o passado restos de corpos
inidentificáveis ensacados
chorados roubado tempo
a voz mais forte que os gritos dá
ordens comanda exércitos cegos
raiva e ódio não é gente o outro
ardem-me os olhos por gaza
ardem corpos em gaza
a humanidade arde em gaza
uma bomba caiu
dentro do poema
palavras estilhaçadas
mortas irreconhecíveis
escorrem sangue
é branco o sangue
das palavras
soma de todas as cores
a paz também
uma bomba caiu
dentro do poema
há letras perdidas
desaparecidas
amputadas mortas
é negro o sangue
das letras
ausência de todas as cores
a guerra também
(por caminhos de lama e ria; torreira; 2010)