os moliceiros têm vela (567)


da poesia

a poesia casa

o poeta dentro da casa
pensa-se diz-se é
o imaginado

a poesia janela

o poeta espreita o mundo
pela janela e retira-se
para dentro da casa
escreve respirou ar livre

a poesia porta

o poeta sai de casa entra
no mundo pensa-o
escreve-o descreve-o
cidadão da palavra

a poesia epígrafe
ou será epitáfio

esconde o medo do poeta
sob a capa do outro
o consagrado o inquestionável
teme pelo poeta

(moliceiros; s. paio; torreira; 2012)

“o assassínio telecomandado …” de ahcravo gorim


(guache de ana feijão; 45x29cm; março de 2025)

o asssassínio telecomandado
a destruição minuciosa precisa

num novo deserto tendas
erguidas sobre escombros
deixados pelos bárbaros
modernos sofisticados

as crianças o futuro os velhos
o passado restos de corpos
inidentificáveis ensacados
chorados roubado tempo

a voz mais forte que os gritos dá
ordens comanda exércitos cegos
raiva e ódio não é gente o outro

ardem-me os olhos por gaza
ardem corpos em gaza
a humanidade arde em gaza

postais da ria (552)


uma bomba caiu
dentro do poema

palavras estilhaçadas
mortas irreconhecíveis
escorrem sangue

é branco o sangue
das palavras
soma de todas as cores
a paz também

uma bomba caiu
dentro do poema

há letras perdidas
desaparecidas
amputadas mortas

é negro o sangue
das letras
ausência de todas as cores
a guerra também

(por caminhos de lama e ria; torreira; 2010)