uma bomba caiu
dentro do poema
(sal do mar; rer; armazéns de lavos; 2017)
lembro-me da terra
à segunda a feira
dos fabricos caseiros
do quintal e da capoeira
as contrafacções e os bons preços
os vendedores a apregoar
vi um na assembleia
a negociar
hábitos de feira
a régua e esquadro traçadas
as ruas numeradas
a linha de caminho de ferro
e o mar do outro lado
o jogo e unamuno
as férias o verão
os pescadores
nunca ali vi o sol pôr-se
só lhe sei a cor de dia
nunca o vi verde
(recriação da xávega com bois; silvalde; espinho; 2012)
escreve com um machado
essa arma medieva
no pulso presa
decepava cortava
mutilava indefesa gente
escreve com um machado
essa ferramenta de lenhador
no abate das grandes árvores
cortar lenha para o inverno
afiado gume funda ferida
escreve com um machado
bela metáfora para
a navalha de ponta e mola
língua bífida de víbora bípede
(xávega; ir ao mar; largar o reçoeiro; torreira; 2014)
hoje não me apetece escrever
e há muita força neste não
obrigações não tenho
assunto não falta mas
hoje não me apetece escrever
já me vi ao espelho e não gostei
notícias do mundo tão tristes
assunto não falta mas
hoje não me apetece escrever
talvez quem sabe uma questão
de confiança de falta dela
ou da chuva não sei mas
definitivamente
hoje não me apetece escrever
(xávega; reparar redes; torreira; 2012)
não
recuso-me a não ser
do meu tempo
recuso-me a não ser
as pedras-palavras
as palavras-pedras
no vidro dos dias
não
recuso a cegueira
auto imposta para
sossego das noites
como feridas abertas
pururlentas estes dias
escrevo-te o ser hoje
o ontem e temo o amanhã
não
não quero ser mais um
silêncio sentado no sofá
a cumentar calado
recuso-me a ser cúmplice
por omissão
as palavras são a minha
intifada aqui
(skimboard; tamargueira; buarcos; 2011)