“o assassínio telecomandado …” de ahcravo gorim


(guache de ana feijão; 45x29cm; março de 2025)

o asssassínio telecomandado
a destruição minuciosa precisa

num novo deserto tendas
erguidas sobre escombros
deixados pelos bárbaros
modernos sofisticados

as crianças o futuro os velhos
o passado restos de corpos
inidentificáveis ensacados
chorados roubado tempo

a voz mais forte que os gritos dá
ordens comanda exércitos cegos
raiva e ódio não é gente o outro

ardem-me os olhos por gaza
ardem corpos em gaza
a humanidade arde em gaza

postais da ria (552)


uma bomba caiu
dentro do poema

palavras estilhaçadas
mortas irreconhecíveis
escorrem sangue

é branco o sangue
das palavras
soma de todas as cores
a paz também

uma bomba caiu
dentro do poema

há letras perdidas
desaparecidas
amputadas mortas

é negro o sangue
das letras
ausência de todas as cores
a guerra também

(por caminhos de lama e ria; torreira; 2010)

crónicas da xávega (597)


lembro-me da terra

à segunda a feira
dos fabricos caseiros
do quintal e da capoeira
as contrafacções e os bons preços
os vendedores a apregoar

vi um na assembleia
a negociar
hábitos de feira

a régua e esquadro traçadas
as ruas numeradas

a linha de caminho de ferro
e o mar do outro lado

o jogo e unamuno
as férias o verão
os pescadores

nunca ali vi o sol pôr-se
só lhe sei a cor de dia
nunca o vi verde

(recriação da xávega com bois; silvalde; espinho; 2012)

crónicas da xávega (596)


escreve com um machado
essa arma medieva
no pulso presa
decepava cortava
mutilava indefesa gente

escreve com um machado
essa ferramenta de lenhador
no abate das grandes árvores
cortar lenha para o inverno
afiado gume funda ferida

escreve com um machado
bela metáfora para
a navalha de ponta e mola
língua bífida de víbora bípede

(xávega; ir ao mar; largar o reçoeiro; torreira; 2014)

crónicas da xávega (595)


hoje não me apetece escrever 
e há muita força neste não
obrigações não tenho
assunto não falta mas

hoje não me apetece escrever
já me vi ao espelho e não gostei
notícias do mundo tão tristes
assunto não falta mas

hoje não me apetece escrever
talvez quem sabe uma questão
de confiança de falta dela
ou da chuva não sei mas

definitivamente
hoje não me apetece escrever

(xávega; reparar redes; torreira; 2012)