não tenho palavras
esgotei o meu fraco reportório
face ao real a minha pobre
arte de inventar pede esmola
a poesia segue
dentro de momentos
(xávega; o arribar do saco; torreira; 2014)
(guache de ana feijão; 45x29cm; março de 2025)
o asssassínio telecomandado
a destruição minuciosa precisa
num novo deserto tendas
erguidas sobre escombros
deixados pelos bárbaros
modernos sofisticados
as crianças o futuro os velhos
o passado restos de corpos
inidentificáveis ensacados
chorados roubado tempo
a voz mais forte que os gritos dá
ordens comanda exércitos cegos
raiva e ódio não é gente o outro
ardem-me os olhos por gaza
ardem corpos em gaza
a humanidade arde em gaza
uma bomba caiu
dentro do poema
palavras estilhaçadas
mortas irreconhecíveis
escorrem sangue
é branco o sangue
das palavras
soma de todas as cores
a paz também
uma bomba caiu
dentro do poema
há letras perdidas
desaparecidas
amputadas mortas
é negro o sangue
das letras
ausência de todas as cores
a guerra também
(por caminhos de lama e ria; torreira; 2010)
lembro-me da terra
à segunda a feira
dos fabricos caseiros
do quintal e da capoeira
as contrafacções e os bons preços
os vendedores a apregoar
vi um na assembleia
a negociar
hábitos de feira
a régua e esquadro traçadas
as ruas numeradas
a linha de caminho de ferro
e o mar do outro lado
o jogo e unamuno
as férias o verão
os pescadores
nunca ali vi o sol pôr-se
só lhe sei a cor de dia
nunca o vi verde
(recriação da xávega com bois; silvalde; espinho; 2012)
escreve com um machado
essa arma medieva
no pulso presa
decepava cortava
mutilava indefesa gente
escreve com um machado
essa ferramenta de lenhador
no abate das grandes árvores
cortar lenha para o inverno
afiado gume funda ferida
escreve com um machado
bela metáfora para
a navalha de ponta e mola
língua bífida de víbora bípede
(xávega; ir ao mar; largar o reçoeiro; torreira; 2014)
hoje não me apetece escrever
e há muita força neste não
obrigações não tenho
assunto não falta mas
hoje não me apetece escrever
já me vi ao espelho e não gostei
notícias do mundo tão tristes
assunto não falta mas
hoje não me apetece escrever
talvez quem sabe uma questão
de confiança de falta dela
ou da chuva não sei mas
definitivamente
hoje não me apetece escrever
(xávega; reparar redes; torreira; 2012)