a beleza do sal (126)


silencio
as palavras
planto-as algures
no canto mais luminoso
do jardim que tenho
para esse fim
(o fundo do bolso)

hoje não é dia de abrir
janelas
nem de as deixar voar
quero-as todas
para mim

e ficar assim
em silêncio
a pensar
tão somente
porque sim
morraceira; 2019

postais do arroz (16)


ser ainda vertical
saber o valor da palavra
dada

ler nos olhos
não nos lábios

dizer não
com a convicção
que dizer sim
seria verdadeira
negação

resistir e sobreviver
sabendo que os valores
não têm cotação na bolsa
se bem que pela sua venda
muitos encheram o bolso

ser eu ainda
apesar de

crónicas da xávega (489)


sê grato às portas que te abrem
e às que te fecham também

ser de todos é não ser de ninguém
de ti primeiro que todos quiseste ser

fizeste-te dizendo não calando
disseste presente ao mau tempo

sê grato às portas que se fecham
e às que te abrem és tu em todas

sê grato à diferença
como o vento despenteia as ondas
torreira; 2010; a escolha

postais da ria (404)


infinitas manhãs

cais do bico; murtosa
infinitas manhãs
de gestos suspensos
no vazio de não haver tecto

infinitas manhãs
de impiedosas mãos desfiguradas
num enclavinhar de dedos
na lisura das paredes

infinitas manhãs
de doridos olhos encovados na palidez do rosto
arrastando-se fundos pelo dia imposto

infinitas manhãs
porque não me deixais dormir

cais do bico; murtosa

da natureza e do amor


era manhã
muito cedo ainda

ensonado o sol recusava-se a rir
a névoa que cobria os campos
era um véu tímido que lhe tapava os lábios

lentamente o dia
espreguiçou-se, bocejou
iniciou o ritual do levantar

escondido
atrás de uma erva pequenina
a tudo assistia estupefacto
no momento em que chegaste

vinhas de muito longe
poisada numa folha verde
trazida pelo vento gelado da manhã
eras nova no prado
ninguém te conhecia

para mim sorriste
e as outras abelhas
invejaram-me a companhia