pedem-me palavras
as mãos
é sempre de norte o vento
que leva o tempo
gasta corpos redes barcos
pedem-me palavras
as mãos
e eu com as minhas vazias
reinvento a memória dos dias
(xávega; reparar redes; torreira; 2007)
em louvor da epifania
a epifania chegou rente
à hora de jantar
torradas iogurte e fruta
um chá a terminar
a epifania era culta e bela
sábia nas artes de amar
foi longa e breve a noite
epifania invulgar
perguntei se voltaria
havia um poema a acabar
era só uma epifania
mas disse-me que ia tentar
(sal do mar; armazéns de lavos; mexer; 2017)
a aldous huxley
com os olhos em gaza
só em língua morta
agónicos nos dizemos
actores e espectadores
espécie quase extinta
homo horribilis somos
com os olhos em gaza
impotente escrevo
planto palavras-minas
sei-me apenas mais uma
voz num deserto
povoado de outras vozes
o que resta do sonho
é o sonho em nós
com os olhos em gaza
(skimboard; praia da tamargueira; buarcos; 2011)
dezembro começou com sol
dia bom para lavar e secar o natal
fiz máquina com todos os ingredientes
anticalcário detergente amaciador
programa longo
dupla centrifugação à rotação máxima
estendi na varanda coberta
não fosse a chuva tecê-las
esperei que secasse
quando o tirei da corda estava na mesma
manchas de sangue nódoas de lágrimas
aquele vermelho berrante de refrigerante
enlatado entranhado
depois de tanto trabalho o resultado
foi levá-lo para o contentor de reciclagem
e esquecer mais um investimento familiar
(xávega; dar o porfio; torreira; 2012)