dói esquecer

quantos passos são dez anos quantas horas mede um homem não sei não sei nada quisera nunca ter sabido dói esquecer
dez anos

dez anos é muito tempo ou foi ontem
enredado

encontrar a primeira malha seguir o rasto ao fio caminho inverso ao da agulha depois da primeira muitas mais fizeram a rede mas essas vieram depois encontrar a primeira malha é contar a história da rede da rede toda a começar pelo fim minuciosos os dedos são a ferramenta primeira na escolha cuida deles como da verdade encontra a primeira malha ou em vez de redeiro serás enredado
2 de setembro de 2016

como já escrevi na primeira publicação desta série, a minha era digital na xávega começou em 2005 e, na torreira, por motivos vários, terminou no dia 2 de setembro de 2016 – doze anos a registar fotográficamente, e não só, a xávega na torreira
a foto que publico hoje é a “última foto que fiz no mar da torreira”.
como não acredito em coincidências, entendo que o facto de nela aparecer o meu grande amigo agostinho trabalhito “canhoto” não é acaso, tinha de ser.
lembro uma história breve da nossa amizade e que diz tudo.
“um dia, disse-lhe que quando morresse as minhas cinzas iriam ser deitadas ao mar. ao ouvir isto o agostinho, com a maneira de falar que o caracteriza, exclamou:
ah! cravo. eu nesse dia não bou ao mar!“
2005, murtas a labuta continua

em 2005 continuava a trabalhar na praia da torreira a companha dos murtas, com o barco olá sam paio.
dos irmãos zé e antónio murta. o antónio era mais o homem de mar e o zé o de terra. creio que é em 2005 que falece o antónio em naufrágio à beira praia.
era, e é, opinião minha, uma companha familiar – da propriedade à própria composição da companha.
para além dos arrais e donos, não posso deixar de me lembrar da marlene, filha do zé, que era a responsável pela “contabilidade” da companha, e do redeiro, ti caetano da mata.
2005 ano um

em 2005 aparece na praia da torreira um barco “novo”. o m. fátima de marco silva, regressado do luxemburgo.
o barco pertencera ao arrais bolacha e chamava-se sra da aparecida.
faz-se ao mar com alfredo brandão (pirolito) como arrais de mar e o apoio em terra do experiente antónio trabalhito (barbeiro), entretanto falecido.
de costas, agarrado ao vertente, o estrela – que também já partiu para outro mares, mais distantes.
2020 ano a zero

em 2005 começou a minha aventura na fotografia digital.
não sou “de fotografar tudo”, tenho os meus temas, sempre os tive. de entre eles o retrato e a xávega começaram por se destacar na era digital, sem quaisquer pretensões.
desde 2005, ano após ano, fotografei a xávega em várias praias da nossa costa. andei por aí.
2020 é o primeiro ano em que não faço uma única foto de xávega, uma única. causas várias em que o covid também tem a sua importância.
neste registo de 2005, fica a memória de um barco: o s. pedro. era propriedade do arrais manuel dias da torreira (é ele que está na bica da ré). anos mais tarde foi comprado pelo arrais zé murta (falecido) que, depois de reparação foi rebaptizado com o nome de “olá s. pedro”.
viria depois a ser vendido para a praia de pedrógão.
a fotografia permite estas viagens.
o silêncio é uma vela

começas a escrever os dias a repetir a palavra ontem cada dia mais vazia de vida mais cheia de memória em ti habitam os que partiram em ti se demoram no sobrevoar da ria tão deles olhas como te ensinaram e lembras os nomes os rostos ainda ouves as vozes o silêncio é um barco e tu a vela que o tempo enche
era uma vez

na bica da proa o sonho navegou ria fora velas enfunadas brancas sempre brancas poiso de palavras de desejos branca a espuma à ré marca de nada mais também eu
