crónicas da xávega (197)


arribarei

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stalone e aurora caravela

virão os dias de mar
perguntarão por mim
as gaivotas os amigos
os que se habituaram a

não há mar que caiba
numa praia
nem memória que se esgote
num areal

tenho o tamanho que me deram
os que ao mar foram
vem deles este destino de onda
em busca de praia

arribarei onde

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(torreira; 2013)

mãos de mar (17)


estranho sabor

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as mãos acabam
onde tudo começa
ou será o contrário?

na areia da praia
à torreira do sol
ardem palavras

uma gaivota passeia nas redes
faz a última limpeza
come

as mãos continuam
o princípio e o fim
no côncavo da palma

cheguei de mãos vazias
parto de mãos amargas
estranho sabor

a gaivota levantou voo
juntou-se ao bando

por momentos existimos

(torreira)

crónicas da xávega (195)


até um dia

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tudo fica agora longe
próximas
as imagens as memórias
o sentir ainda

descrevo o que vejo
ou sinto quando olho
e escrevo porque

as palavras
crescem da imagem
como da terra a árvore

e eu
eu sou ainda
o que não vai haver

parado num tempo
em que fui demais
para não voltar a ser

espero-vos
onde a espuma
adormece na areia
e há sempre esperança
de haver mar

até um dia

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(torreira; 2011)

mãos de mar (16)


para o menino bonito

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o meu povo trabalha duro
não tem tempo para brilhantinas
ordenados milionários
viagens em classe executiva

o meu povo
os copos que bebe
saem-lhe do corpo e sabem a sal

o meu povo
tem direito a ser respeitado
por todos
em especial pelos gravatinhas
que não o conhecem
nem falam a sua língua

o meu povo
respeita todos os povos
porque todos os povos
são o meu povo

o meu povo
tem a sabedoria dos dias de parca paga
que reparte com as mulheres
e os filhos

o meu povo
está cansado de meninos bonitos
com muita escola e poucos princípios

o meu povo
convida o menino bonito
para um dia de trabalho

 

crónicas da xávega (194)


carta ao meu amigo miguel bitaolra

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o tempo correu depressa
ti miguel
você deixou o mar
o corpo já não permite
a dureza da faina

lembro-me de si
e do alfredo fareja
das alegrias
das brincadeiras
do mar ali e nós

o ti alfredo já partiu
já partiram muitos
a areia é ainda a mesma
os barcos ainda vão ao mar
ainda há companhas na torreira

apeteceu-me escrever-lhe
oito anos depois
de lhe ter tirado esta foto

apeteceu-me a memória do que foi
quando não sei o que será

apeteceu-me agora
e agora foi mais forte

abraço ti miguel

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(torreira; 2009)

crónicas da xávega (193)


caminhos de areia

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seco o saco a companha leva à zorra

serem de areia os caminhos
ser pesado o fardo
de vivo estar e não haver outro
que melhor sabido

acredito
acredito sempre no homem
no homem e na sua palavra

serem os caminhos de areia
é serem eles por vezes
caminhos da palavra

então digo
não foi perdido o tempo
foi perdido o homem

a palavra é muito mais
cresce no tempo onde ele já não

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ardem na areia os pés

(torreira; 2013)

mãos de mar (13)


as mãos que não vês

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as mãos do agostinho

mãos vazias
esculpidas pelo cinzel
do tempo

mãos de não ter havido
herança basta
apelido sonante

mãos salgadas
de tanto mar tanto suor
tanto serem

mãos com voz
mãos nossas ignoradas
mãos silenciadas

mãos mãos mãos
quantas na mesa o peixe
a carne o pão o vinho

mãos com rosto
mãos mãos mãos

olha as mãos
que não vês

(torreira; 2013)

xávega: apontamentos breves


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cacilda brandão, mulher do mar e da xávega da torreira

em primeiro lugar, queria dedicar estas breves palavras aos meus amigos, pescadores da xávega da torreira que, ao longo dos anos, foram partindo: antónio murta, zé trabalhito, alfredo fareja, estrela, antónio trabalhito, zé murta, joão pequeno, nicole, ti alfredo neto, ti antónio neto, carlos aldeia, carlos seminhas, antónio acabou, serra, vitor caravela, a todos os outros que já partiram e o nome não me ocorre e aos que continuam a arte, por isso a ti também ricardo silva.

erros que aqui possam encontrar estão sempre abertos a sugestões e correcções, este não é um texto de sábio, exaustivo ou fechado. é o que é, nada mais.

há já alguns anos que me tenho vindo a dedicar a fotografar companhas da torreira e da praia de mira e, em simultâneo, ao estudo da história da xávega. chegou o momento de deixar testemunho em palavras e vídeos (em que a qualidade não é o mais importante, mas sim a visualização dos procedimentos).

a minha primeira aprendizagem foi feita com um bom e “velho” amigo, o arrais joão da calada, da torreira, que me foi respondendo às perguntas que lhe fazia e enriquecendo o meu conhecimento teórico com o seu saber de arrais.

desde 2005 e até 2016 segui, ano após ano, a “companha do marco”, na torreira, e com ela continuei a minha aprendizagem, observando de perto a actividade e registando termos e técnicas.

fui ao mar com o chico giesteira, então arrais da “companha do pepolim” e várias vezes com a “companha do marco”.

resolvi juntar em 3 clips de vídeo, aqueles que considero os momentos relevantes de um “lanço de xávega”:

“ir ao mar”

“arribar e alar”

“alar e aparelhar”

publiquei já um vídeo a que chamei “um lanço de xávega” e onde se encontra registado, numa visão da bica da proa para dentro do barco, a ida ao mar, o largar das redes, o arribar e o aparelhar

nestes 3 novos registos a visão é do exterior, segmentada e procura fixar procedimentos.

comecemos então pelo princípio

1- xávega, arte-xávega, arte xávega, artes

são as designações utilizadas para designar esta arte de pesca, não cabe aqui a discussão sobre qual a mais correcta, há argumentos a favor de qualquer uma. eu uso “xávega”

2- companha

numa companha podemos distinguir dois grupos, mais ou menos fixos: os que vão ao mar e os que fazem trabalho só na praia. os primeiros também trabalham na praia, mas os segundos raramente, ou nunca, vão ao mar.

se a companha tiver um arrais digno desse nome, a organização das tarefas e sua atribuição fica estabelecida desde início e no decorrer do lanço só se vê uma “companha que funciona como uma orquestra”.

3- lanço

para mim o lanço começa no aparelhar do barco – carregá-lo com as redes, as calas (cordas) e os arinques (bóias) – e termina com o estender na areia a rede que foi ao mar e fechar de novo o saco.

há, é bom dizê-lo, dois tipos de lanços : “mão abaixo” e “mão acima”.

para os distinguir é necessário introduzir o conhecimento das designações das cordas (calas) que, fazendo fixe no “calão”, servem para puxar a rede. a que fica em terra quando o barco se faz ao mar chama-se “reçoeiro”, a que o barco traz quando vem do mar chama-se “mão de barca”.

num lanço “mão abaixo” – o mais vulgar – o largar da rede é feito de forma que a “mão de barca” fique a sul do “reçoeiro” – aqui como na ria, ou na ria como aqui, o norte é “cima” e o sul “baixo”.

num lanço de “mão acima” o largar da rede de cerco é feito de forma que a “mão de barca” fique a norte do “reçoeiro”.

4- largar

pela madrugada e depois de almoço, o arrais vai “ler” o mar para saber se se pode “trabalhar” no mar. na leitura entram vários factores de que destaco dois : a altura e o “ritmo” das ondas – diria, em termos simples que o ritmo das ondas se mede pelo número de ondas seguidas, 3,5, 7 …..- quanto maior for o ritmo mais dífícil é que a duração do intervalo entre duas séries consecutivas, o “liso” dê tempo para que o barco ganhe o largo. o arrais tanto lê o mar rente à praia, como ao largo – na torreira, devido ao declive da costa forma-se um “lago” entre a praia e o largo, que se atinge passando o “cabeço” -, por isso o arrais lê as ondas não só perto da praia mas também no “cabeço”.

para se fazer ao mar o barco, não há muitos anos, era impulsionado por uma “muleta” de madeira, apoiada numa peça – em madeira ou metal – existente no exterior da bica da ré, e era empurrada por um tractor de força – antigamente, na torreira até 2001, por bois.

quando se fazia ao mar o barco tinha três pontos de fixe: a “muleta”, o “reçoeiro” e a “regeira”. a muleta fixava-o porque a extremidade que se apoiava na bica da ré, tinha a forma de V que “abraçava” um pouco a costura das tábuas da ré. amarrava-se ainda ao golfião de estibordo uma corda – a “regeira” – que era atada a um bordão que se enterrava na areia, sempre a norte – são de norte as correntes dominantes – que forçava o barco a ficar perpendicular à praia. o camarada que fosse à ré a controlar o reçoeiro mantinha-o laçado na bica e, também ele, fazia mais um “fixe” para segurar o barco. aliás, era ele que ao largar o reçoeiro e ao grito de “bota!” dava ordem para que o barco largasse.

há praias em que o barco é levado ao mar em cima de uma estrutra metálica com rodas; noutras, como na praia de mira, a muleta foi substituída por uma estrutura triangular que apoia na pá do tractor; na torreira, desde 2011, a companha do marco passou a utilizar duas “muletas” – dois varões de aço que encaixam em cápsulas de metal fixas a meia altura do costado, e que são fixos ao tractor – exemplo logo seguido pela companha do “olá s. paio”. nestes casos o largar é muito mais seguro e não existe “regeira”.

5 – arribar

o momento mais perigoso numa ida ao mar é o “arribar”: o barco vem leve e só tem como “fixe” a “mão de barca”. repare-se como o arrais vai laçando a “mão de barca” na bica da ré para “segurar” o barco quando se aproxima o momento de “apanhar a onda certa e surfar até à praia”. a decisão de se fazer à praia tem muito de arte, saber e sorte.

tarefa arriscada também a dos homens que levam as cordas com os ganchos para enfiar nos “arganéis” da proa, é enfiar e correr, não vá vir uma onda traiçoeira e o barco atravessar-se ou avançar depressa demais – há registo de pernas esmagadas em situações destas. o tractor a que são presas e terá de tirar o barco do mar, tem uma responsabilidade enorme no sucesso destes momentos de tensão e perigo, de que poucos se apercebem.

mal o barco arriba, a “mão de barca” é levada a força de braços até ao tractor que lhe está atribuído e começa a “alagem”. em simultâneo começa a limpeza e aparelhar do barco.

6 – tarefas em terra: alar e aparelhar, porfiar

alar

como já disse acima, quando o barco se faz ao mar fica em terra a ponta do reçoeiro que é fixa ao tractor que lhe foi atribuído, o sentido de deslocação do barco, norte ou sul, determina o movimento do tractor, uma coisa porém é certa : o tractor do “reçoeiro” ficará sempre a norte do tractor da “mão de barca”. normalmente a alagem do “reçoeiro” começa por manter esticado reçoeiro quando o barco se faz “mar adentro”, caso haja uma deslocação inicial paralela à praia, ou desde o largar,  se o barco largar logo mar adentro – perpendicular à praia – . o alar do reçoeiro começa sempre depois do barco largar da rede.

quando me referi ao aparelhar do barco falei nas “calas” sem as descrever. as “calas” não são mais que um conjunto de rolos de corda, amarrados uns aos outros por nós. repetindo-me, há duas calas: “reçoeiro” e “mão de barca”.

durante a alagem o saco tem de vir paralelo à praia para que o pescado não fuja, o que exige um controle permanente do andamento dos aladores e do trabalho dos elementos da companha que lhe estão afectos. os nós são uma referência permanente e, dada a distância por vezes grande entre o alador da “mão de barca” e o do “reçoeiro” a comunicação entre as duas equipas é feita por sinais de boné ou, mais modernamente, por intercomunicadores. o arrais está sempre atento a estes procedimentos, pois podem pôr em causa todo o lanço. quando os “arinques” do “reçoeiro” e da “mão de barca” estão ao alcance da vista são eles a referência do paralelismo. mas nem todos os olhos vêem o mesmo.

ao meio do saco existe um outro arinque a que chama “calime” ou “calima”.

quando a rede está a chegar à praia já o barco está aparelhado e toda a companha está pronta para “segurar as mangas” com os “bordões” – “estacadões” na praia de mira – e, no final, trazer o saco para seco.

aparelhar

aparelhar o barco é carregá-lo com a rede e as cordas que constituem o “aparelho”: a xávega.

para este processo podemos identificar duas esquipas: a que se ocupa da rede e do reçoeiro e a que trata da mão de barca.

a equipa da rede e do reçoeiro coloca-se sensívelmente a meio do barco, logo a seguir ao traste em direcção à ré e começa o aparelhamento com o carregar da rede seca que está em cima da zorra. no barco um camarada vai recebendo a rede e “arrumando-a”, os que estão na areia devem encaminhá-la limpa de areia e desembaraçada. a sequência é : rede, reçoeiro. rede no fundo, reçoeiro por cima, entre o traste e a antepara do motor. a rede termina no calão, ao qual é amarrado o reçoeiro. o saco dá uma volta na bica da ré, a que é amarrado para não cair, e vai até ao paneiro da proa.

a equipa da mão de barca trabalha do lado oposto do barco e entre o traste e o paneiro da proa. a cala mão de barca cala é presa ao calão que foi deixado acessível, apesar de se encontrar por debaixo das duas mangas : reçoeiro e mão de barca.

porfiar

quando o saco chega à praia é aberto por uma costura feita com fio mais grosso e fica de “barriga aberta”.

depois da rede seca há um camarada que “dá o porfio”, isto é, volta a fechar o que foi aberto para retirar o peixe.