crónicas da xávega (361)


escrevo

torreira; 2005
 escrevo o tempo com imagens
 guardadas nos baús digitais
 da memória comprada
 
 
 a informação diz-me o quando
 eu sei onde ainda sei
 
 
 quando tudo foi ontem e ontem
 foi há tanto tempo
 
 
 sei deste caminho feito
 de achares e perderes
 sei que valeu a pena
 
 
 homens que conheci para desconhecer  
 o tempo tudo limpa e lava  
 mesmo o que mais fundo à superfície vem
 
 
 escrevo o tempo com imagens
 como todos os que arriscam palavras
 escrevo-me também e isso não é novo
 para ninguém 

a beleza do sal (105)


“Recriação da safra à moda antiga” – foto 16

é quando o vento sopra forte

salina do corredor da cobra; 2020
 é quando o vento sopra forte
 que das árvores caem
 ramos folhas frutos
 
 
 alguns vermes
 
 
 é quando o vento sopra forte
 que as gaivotas pairam  
 poisadas no vento
 
 
 por sobre o mar  
 
 
 é quando vento sopra forte
 em dias de sol que se faz
 mais sal no talho
 
 
 mas não flor  

postais da ria (369)


amigos

torreira; porto de abrigo; 2018
então trocas os nomes
confundes os rostos
reconheces a voz
mas é tarde


não tardou o tempo
a crescer onde diminuis


então trocas os nomes
os que não esqueceste
que a memória também


os amigos sorriem e respondem
por um nome que não é o deles


os amigos são para além do nome
o gesto o abraço o sorriso


então sorris também porque
não há trocas na amizade