





dos lábios
em flor se abrem
para serem beijo

(torreira; 2011)
sem tempo

recriação de um lanço de xávega
é tempo do tempo
depois do tempo
tempo lembrado
onde fui
dentro do que foi
tempo reconstruído
o meu tempo
tempo guardado
tempo oferecido
sem tempo

recriação de um lanço de xávega
(torreira; 2013)
mau feitio

os rilho, pai e filho, a mesma faina
chamam-lhe rio
e é salgada a água
chamo-lhe memória
e é cada vez mais isto
imagens penduradas
nos olhos onde amigos
nascentes de sentir
chamo-lhe mar e digo
há outras praias
onde a mesma gente
com outros nomes
a mesma arte
tens mau feitio dizem
sabes não é fácil
ser rio de água salgada
(torreira; cirandar; 2016)
Biografia de JOAQUIM HENRIQUES (RAIMUNDO)

com a esposa Conceição
Biografia de JOAQUIM HENRIQUES (RAIMUNDO)
No dia 9 de Julho de 1933 nasceu Joaquim Maria Henriques, mais conhecido por Joaquim Raimundo, apelido por que era conhecida esta família de construtores navais durante várias gerações.
Joaquim Henriques continuou a tradição do seu trisavô, bisavô, avô e pai; logo de muito novo aprendeu a arte de construir barcos, usados nas fainas da apanha de moliço e pesca na Ria de Aveiro.
Em 1959 Joaquim Henriques emigrou para os Estados Unidos, mas a paixão de construir barcos foi com ele e cedo começou a trabalhar para um construtor naval.
Mais tarde, o seu pai (Mestre Raimundo) também emigrou, em 1960, e começou a trabalhar com ele. Juntos usaram seus vastos conhecimentos que tinham em trabalhar com madeira. Foi aí que aprenderam não só a trabalhar com fibra de vidro, uma inovação na construção de barcos, como também Joaquim Henriques aprendeu as técnicas de desenhador naval, mais tarde usadas para desenhar os seus iates.
Em 1977 concretizou o seu sonho e fundou a sua própria companhia “Henriques Yachts” no estado de Nova Jersey, Estados Unidos. Tal foi o sucesso, que actualmente os iates da marca “Henriques” estão espalhados pelo mundo e são conhecidos nos Estados Unidos pela sua alta qualidade, a mesma fama que tinham os barcos moliceiros feitos na Murtosa pelo seu pai.
No entanto, ainda lhe faltava prestar homenagem à Ria de Aveiro e à Murtosa, terra que ele nunca esqueceu e tanto ama, e decidiu construir um barco moliceiro em fibra de vidro usando os planos e medidas exactas dos barcos que o pai, Mestre Raimundo, construía. Baptizou-o de “O Rei da Ria.” O “bota abaixo”deste barco moliceiro foi um grande evento não só com a presença de entidades americanas mas também portuguesas, entre elas a consulesa de Portugal em Nova Jersey, Dra. Maria Amélia Paiva.
Este lindo barco, “O Rei da Ria”, continua a navegar nas aguas da Barnegat Bay em Nova Jersey, Estados Unidos, orgulhoso pelas suas origens Murtoseiras e sempre admirado pelos americanos que não se cansam de tirar fotografias deste imponente barco com a sua vela ao vento.
Faleceu no dia 2 de Janeiro de 2019, em New Jersey
(obrigado a Natalie Serra, irmã mais nova do mestre Joaquim Raimundo, pela colaboração)

símbolo de Joaquim Raimundo (novo)
linhagem do mestre Joaquim Raimundo “novo”, segundo o próprio:
“Mestre Joaquim Maria da Silva Henriques (Murtosa, 1933 – conhecido por Joaquim Raimundo “Novo”)
Mestre Joaquim Maria Henriques (pai, Murtosa,1909/2005,conhecido por Joaquim Raimundo “velho”)
Mestre Américo Raimundo (tio, tinha estaleiro no Bico)
Mestre José Maria Henriques (tio, tinha estaleiro em Veiros – Santa Luzia)
Mestre Júlio Raimundo (tio, tinha estaleiro na rua de Sto. Estevao, Murtosa)
Mestre Israel Raimundo (primo, filho de Júlio Raimundo, ficou com o estaleiro do pai em Sto. Estevão.)
Mestre José Luís Henriques (avô)
Mestre Agostinho Raimundo (bisavô)”
……
em agosto de 2012, no museu estaleiro do monte branco na torreira, etelvina almeida conversou com o mestre. dessa conversa resultaram um conjunto de clips de vídeo já publicados.
em homenagem ao mestre, falecido em 2 de Janeiro de 2019, reedita-se num só vídeo a entrevista e gravação realizadas em 2012
vou

falo do incerto
do por vir
todo o início é
teremos o tamanho
dos dias
que fizermos nossos
todo o caminho é
falo dos amigos
e a palavra fica por vezes
somente letras
incertos os dias
o por vir os amigos o caminho
incerto eu
na incerteza de tudo
se abrem os dias
por onde vou vou vou

(torreira; 2010)
lição no mar (10)
porquê o mar não sabem
lavam a alma uns
outros os olhos
a música a voz o longe
o efémero infinito todos
(27/12/18; aqui)

lição no mar (11)
o instante
apenas o instante
a espuma de ser
aqui tão sentida
(28/12/18; aqui)

lição no mar (12)
ser apenas
quantas terras quantos mares
dentro destas ondas breves
a ninguém dizem
de tão humildes
são apenas ondas
(29/12/18; aqui)

lição no mar (13)
tu
somaram-se os dias e tu
que ficou de ti no tempo
o fim do ano não é
o fim do mundo
escreveu drummond
afastas-te do início do passado
aproximas-te do início do futuro
tão ínfimo tu
(30/12/18; aqui)

bom ano a todos os que por aqui passarem
fui lavar a cara ao mar e quando voltei tinha prenda de iemanjá
ao ano novo

ofereço-te os dias
onde fui mais que eu
por sobre a ria
as minhas aves voam
para poisar no sol
que cresçam contigo
e continuem a voar

(torreira; regata do s.paio; 2014)
lição do mar (1)
ouver o mar
lição no mar (2)
chove no mar
e eu
de olhos secos
(19/12/18, aqui)

lição no mar (3)
no embalar das ondas
adormeço
e sonho-me criança
(20/12/18; aqui)

lição do mar (4)
ouvir nas nuvens
a música do mar
(21/12/18; aqui)

lição no mar (5)
há quem venha de longe
só para o ver
eu preciso dele para ser
(22/12/18; aqui)

lição de mar (6)
no princípio era o mar
pelo menos para mim
no fim
no fim será também
(24/12/18, aqui)

lição no mar (7)
ilusão
como se o mar nascesse aqui
mas é o mar que ao mar torna
(25/12/18; aqui)
lição de mar (8)
nos penedos
trazem o mar no corpo
de tanto terem navegado
enjoam em terra
(25/12/18; aqui)
a apanhar caranguejo

lição no mar (9)
há em mim uma criança
que nunca deixou de sonhar
é ela é sempre ela
que pela mão
me leva para o mar
(26/12/18; aqui)
