o nosso mar


(torreira; 2007)

cumpriram-se os dias
plenos de sal
séculos escritos sobre as ondas
um povo à beira mar
se fez e aí cresceu

aqui todo o destino tem sabor a espuma
escamas recobrem os homens
mulheres outras estas
as que o mar fez
 
restam poucos
restam muitos
restam os que são e sabem ser
pescadores
apanhados
nas malhas de uma europa
que não a sua
 
afogar-se-ão
ou não?

quem se faz ao mar e o vence
será que vai morrer a ver o mar crescer
sem o poder galgar?
 
falo de homens
não de burocratas
falo do nosso mar

quem vence o mar vence sempre

as medidas do tempo


(torreira; 2011; o descanso da guerreira)

contas o tempo
em máquinas
e outros artefactos

acaso pensaste
no tempo de ser?

quantas horas
tem um minuto de dor?
quantos meses
um dia de fome?
quantos anos
um sorriso de uma criança?

quantos séculos
se inscrevem
nos rostos crestados
pela terra e o sal?

são de gente
os ponteiros
do meu relógio

diverso tempo
este
onde a morte
espreita

até quando?


(praia de mira; 2009)

que dizer-vos
destes tempos em que assisto
a tentativas sucessivas
de assassinato
da memória?

que dizer-vos
da raiva angústia
desespero
destas gentes
que são as as minhas
que são as nossas
que somos nós?

quem seremos
amanhã
se nos querem roubar
o hoje
o ontem?
 
quem seremos
amanhã
se nos querem roubar
o sermos?
 
o povo será sereno
mas até a serenidade
tem limites

até quando?

o desígnio


conquistar os dias
um a um
vencer-se
para vencer
erguer-se

falo de homens
dos que muitos
a bordo de barcos nasceram
neles foram criados
e homens se fizeram
 
falo de moliceiros
nome dos homens
e dos barcos
que ambos se confundem
na labuta e no tempo
 
conquistar o futuro
sendo no presente
esse o desígnio

(regata da ria; 2011)

o moliceiro é bandeira


à vara ou à vela, são dois dos modos de impulsão mais vulgares do moliceiro
unem-se os homens
dão-se as mãos
fazem-se nós
limpa-se a sombra
renasce-se

o moliceiro
é bandeira
amor paixão
modo de vida foi
de memórias pleno
mais que eles
é todos os que antes o foram

uniram-se os homens
cuidem-se os que
ti zé rebeço, um homem da ria, a ria feita homem

pergunta estúpida?


escuta
ouves o rumor das águas
o quebrar das ondas
no casco
as velas pandas batendo
de tanto vento

o vento sopra do norte
o barco voa
a meta está próxima
chega em primeiro
ganhou a regata
 
depois
depois houve que o vender
os apoios não chegavam
para o manter
 
depois
depois não querem que haja regatas
 
é esta a história
de como os moliceiros
por falta de apoio
vão desaparecendo
 
por vezes pergunto-me
porque é que no brasil em vez
de casas tradicionais portuguesas
não construíram moliceiros

(regata da ria; 2010)

estranha forma de pensar cultura


o vento
o norte pai dos dias quentes
da costa ocidental
nesse dia
não se fez sentir

lentos os barcos
sulcaram a ria
sem pressas de tempo
como se dele não soubessem

horas muitas
quase noite
quando a aveiro chegaram
mal sabiam então
que no ano seguinte
seria noite
logo pela manhã

e a regata
a regata
seria negra

que este é um país
onde se enterram os vivos
por ser mais fácil
cuidar dos mortos

chamam-lhe alguns
cultura

(regata da ria; 2011)

em 2012 a regata seria cancelada “por falta de verbas”