os moliceiros têm vela (250)


o meu amigo ti zé rebeço

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o ti zé sempre

que idade tem um homem
quando é um homem de todas as idades?

o que pesa aos ombros de um homem
quando o que carrega é a própria vida?

um mastro de moliceiro
foi tronco de árvore
é hoje a raiz de uma gente
onde a bandeira de um povo
ergue a voz de ser ainda

amanhã ti zé
amanhã iremos sempre à ria
seremos todos os que já foram
todos os que hão-de ser
sabendo que aqui
o moliço foi rei
e os homens quando falavam
empenhavam a palavra

ainda os há ti zé
ainda os há
os de palavra aqui

(regata do bico; 2016)

o vídeo da regata

(todos os anos no primeiro fim de semana de agosto realiza-se na murtosa, no cais do bico, a festa do emigrante.

o ponto alto é no domingo, depois de almoço, a regata de moliceiros. sempre a festa maior da ria.

este vídeo, mais um registo para memória futura, foi feito com a câmara colocada na bica da proa do moliceiro “A. Rendeiro” do ti zé rebeço, moliceiro dos velhos tempos e que bebe na ria a vida de cada dia, aos 76 anos idade. é seu camarada, nos últimos anos, manuel antão.

procurei neste registo não fazer corte de tempos que “parecem” mortos, fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.

que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)

 

os moliceiros têm vela (232)


regata do bico 2016

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” O Amador” a chegar ao cais do bico

participantes e posição à chegada:

classe A

1º – Zé Rito
2º – Marco Silva
3º – A. Rendeiro
4º – Dos Netos
5º – O Amador
6º – C.M. Murtosa

desistiram

S. Salvador
Manuel Silva
Bulhas

Classe B
(não entram para a competição)

Sermar
Ecomoliceiro

no final da regata foram entregues, pelos autarcas da murtosa, as medalhas de participação e as taças até ao 5º lugar.

foi anunciado de que havia prémio de participação e, como é hábito, deve haver também um de “posição à chegada”. os valores não foram divulgados, nem os moliceiros com quem falei o sabem.

alguma explicação há-de haver, e penso que de força maior, para que assim seja. eu só fui fotografar a regata.

aliás, havia muitas máquinas no cais do bico, vindas de muito longe, algumas até de lisboa. os moliceiros trazem às regatas um público muito especial: fotógrafos amadores.

espero que as organizações das regatas entendam, numa época em que se fala tanto de “turismo temático”, o potencial que eles representam.

só mais uma pequena nota, hoje no estaleiro do mestre zé rito, onde se está a construir o moliceiro do zé rebelo, um francês dizia-me:

– em frança só na bretanha se fazem barcos desta forma artesanal, mas não são para particulares, são para património.

mais uma para registo

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o mestre felisberto caçoilo chega ao bico à proa d’ “O Amador”

(cais do bico; 7 de agosto, 2016)

o moliceiro “O Amador”, do mestre felisberto caçoilo, a chegar para a regata ainda pela manhã.

são imagens como esta que me levam a estar cedo e a passar muitas horas no recinto.

os moliceiros têm vela (231)


do tamanho

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(relendo fernando pessoa
«Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.»)

olho à minha volta e vejo
que nesta terra
os que nela mandam
não têm sequer
o tamanho da altura que têm

como poderão ver?

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(murtosa; regata do bico; 2013)

os moliceiros têm vela (223)


a fotografia, a tradição, a memória e os interesses

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a limpidez da memória no registo do momento

não há nada pior que um povo sem história, não é povo sequer. e o que é a história senão o somatório das memórias preservadas?

a fotografia é, desde que surgiu, mais um instrumento de construção da história, porque produtora de memória, com a relevância de ser um registo visual e de impacto.

desdenhar da fotografia é desdenhar da história e da memória. é desdenhar do povo e da sua cultura.

sujar o campo visual da reconstrução da memória é sujar a memória do registo intemporal, quem dera, do momento.

entendam agora porque sou contra o acompanhamento da “regata da ria” por praticantes de kite surf: sujam a memória, impedem o registo limpo de um tempo recuperado.

virá o tempo em que perguntarão porque se estragaram momentos tão belos. mas será tarde para impedir a ganância de alguns, a ignorância de outros, a falta de cultura de muitos e a indiferença da maioria.

poderíamos cantar aqui, assim: assim se desfaz portugal!

0 ahcravo_DSC_1442_regata bico 2012, a partida

é tão frágil esta beleza perante a ignorância

(murtosa; regata do bico; 2012)