a destruição da memória

em 2006 o “José António” ainda velejava na ria.
foi vendido para o turismo, amputado nos canais de aveiro.
assim se constrói a memória por cá.

(regata do bico, 2006)
a destruição da memória

em 2006 o “José António” ainda velejava na ria.
foi vendido para o turismo, amputado nos canais de aveiro.
assim se constrói a memória por cá.

(regata do bico, 2006)
a fotografia, a tradição, a memória e os interesses

a limpidez da memória no registo do momento
não há nada pior que um povo sem história, não é povo sequer. e o que é a história senão o somatório das memórias preservadas?
a fotografia é, desde que surgiu, mais um instrumento de construção da história, porque produtora de memória, com a relevância de ser um registo visual e de impacto.
desdenhar da fotografia é desdenhar da história e da memória. é desdenhar do povo e da sua cultura.
sujar o campo visual da reconstrução da memória é sujar a memória do registo intemporal, quem dera, do momento.
entendam agora porque sou contra o acompanhamento da “regata da ria” por praticantes de kite surf: sujam a memória, impedem o registo limpo de um tempo recuperado.
virá o tempo em que perguntarão porque se estragaram momentos tão belos. mas será tarde para impedir a ganância de alguns, a ignorância de outros, a falta de cultura de muitos e a indiferença da maioria.
poderíamos cantar aqui, assim: assim se desfaz portugal!

é tão frágil esta beleza perante a ignorância
(murtosa; regata do bico; 2012)
hoje estou longe

o ti virgílio no sara e cristina
na terra ficaram poucos
que de pobre
futuro lhes negava
pouco levaram que
nada tinham
a não ser a memória
partiram muitos
mais que os que ficaram
à espera de vez
ou do regresso dos que
tinham partido
onde quer que estejam
estão sempre aqui
nestas palavras e imagens
onde também eu
abraço-os a todos
porque como sempre
hoje estou longe

um senhor no seu moliceirinho, o ti virgílio
(murtosa; regata do bico; 2008)
hoje continuo a ser eu

o moliceiro “zé rito”
chegar ao mar
dizer bom dia à ria
ver sentir ser
esquecer tudo
viver apenas
o que os olhos
o deslumbramento
é breve
sinto na carne
a faca que me espetaram
e tudo se esvai
soma-se o que oiço
a exploração dos pescadores
o ludíbrio dos moliceiros
a verdade é mais forte
que toda a beleza
e o instante passou
por muito que me doa
hoje continuo a ser eu

manejam os barcos com a mesma arte com que são manejados
(murtosa; regata do bico; 2009)
em torno de mim

impossível este silêncio
este momento sem tempo
quase um quadro
onde nada perfeito é
desvendar os olhos
imaginar os gestos
imperfeitos de humanos
o movimento cadenciado
das mãos o trabalho
a carícia ou a sua ausência
o vento sorri
e eu sou o que resta de mim
o que fizeram do que fui
o círculo
lembro-me de o ter escrito
algures
por mais largo que seja
fecha-se sempre
as pontas começam a unir-se

(murtosa; cais do bico)
chama-se marta

como se descobrisse a luz
chama-se marta
faz hoje um mês
é a minha terceira neta
faz hoje um mês
que nasci outra vez

como se o início de tudo
(murtosa; regata do bico; 2010)

SONY DSC
é no dar das mãos
que nos fazemos

SONY DSC
(murtosa; regata do bico; 2009)
boas manel

éramos jovens e cantávamos
mal eu e tu
os artistas eram outros mas a festa
éramos todos
quarenta cinco anos lá vão
regressaram hoje
quando soube que tinhas
não sei como dizê-lo
só sei que não voltarás
a responder-me
sempre que te falar
direi “olá manel”
e só o silêncio do outro lado
começo a ter muitas respostas
de silêncio
mas voltemos à festa ao sermos
jovens e ser verão
haver um monte branco
monte branco mesmo
o francês
os passeios rente à ria
as cantorias com e sem violas
as conversas
quarenta e cinco anos manel
é muito tempo
mas estás agora aqui comigo
em silêncio
enquanto os ouvimos cantar
e tocar
na areia da praia que também
já não é
abraço manel
é bom estar contigo

(ria de aveiro; cais do bico)
quem dera tu

os dias têm o tamanho
de sempre
mas entre o nascer e pôr
as horas de sol
nem sempre as mesmas
acolhem-me os hoje
onde os ontem
são promessas de amanhã
o caminho estreita-se
crescer é diminuírem os dias
sermos mais e menos
divago por entre memórias
existo ainda
por isso escrevo só por isso
não te escrevo
escrevo-me
os dias têm o tamanho
de sempre
quem dera eu também
quem dera tu

(murtosa; regata do bico, 2012)

quando não há vento in”venta”-se
sabíamos que os moliceiros podiam andar:
– à vela
– vara
– à sirga
mas “a vertedouro” só um mestre construtor e velejador, como o mestre felisberto caçoilo, podia inventar

ser moliceiro é isto: rein”ventar”
(murtosa; regata do bico; 2010)