salgado silêncio

ao peso dos anos curva-se o corpo amargo tempo este salgados olhos vazios braços famintos de abraços curva-se o corpo ao peso dos anos ouve-se longe o silêncio
que fazer das palavras
que fazer das palavras se não o assassínio do silêncio que fazer das palavras se não a ferramenta da denúncia que fazer das palavras se não o dizer esta revolta hoje aqui que fazer das palavras se não servirem para derrubar o palco erguido pelo silêncio que fazer das palavras se as aprendi para as dar e serem mais só a conquista dá valor ao conquistado desprezadas são as ofertas que fazer das palavras se não usá-las para gritar quando necessário
é dia ainda
é dia ainda e já se ouve o uivar do lobo a memória acende nos lábios as palavras guardadas quase esquecidas necessárias é dia ainda e já se sente o fedor da besta junta-se na praça a alcateia vindos de longe respondem ao chamado sedentos de carniça é dia ainda e já sabemos que o uivo o fedor mau prenúncio são ao engano quantos irão
doem-me os braços
tempo de espera este sobreviver para viver sem saber quando tempo para lembrar depois esquecer tempo de não ser o sal está a trabalhar dizem e esperam o tempo de estar feito no talho que me coube vou mexendo os dias com vontade de os rer doem-me os braços por falta de abraços
“Recriação da safra à moda antiga” – foto 13
do monte para os punhos o sal enche a giga


ilha da morraceira; mexer; 21/07/2020