os moliceiros têm vela (403)

os moliceiros têm vela (403)


6 de agosto de 2006
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cais do bico; regata do emigrante; 2006

 
dia de regata do emigrante no cais do bico, como era hábito a família almoçou na tenda/restaurante da junta de freguesia da murtosa, de cujo presidente os meus pais eram amigos, mas eu não – políticas …
 
em 2005 eu tinha começado a fotografar a companha do marco, que nascera nesse ano e que acompanhei até 2016. tinha sido arrais o cipriano, que deixou de o ser em 2006, para passar a ser o marco. mas isto é uma outra história.
 
o marco e o cipriano apareceram com um moliceiro na regata, de que não me lembro o nome, e quando o marco me viu a fotografar perguntou-me se não queria ir com eles. claro que sim. saltei para dentro do barco e comecei a fotografar. faltava ainda um camarada – cada barco tem direito a três camaradas.
 
quando o terceiro camarada chegou, já o barco estava para largar. então, do seu posto de controlo, o digníssimo presidente da junta de freguesia da murtosa grita para o marco:
 
– só podem ir três no barco e estão quatro
 
ao que o marco respondeu, o que era óbvio:
 
– mas o sr. cravo só vai para fotografar
 
– conta na mesma – disse quem de direito
apesar da calmaria, eu disse ao marco que saía do barco e que ele precisava era de um camarada e não de um fotógrafo. não senhor, vai connosco – foi a resposta. e fui.
 
passados poucos minutos da regata arrancar, levanta-se nortada, quem conhece a ria sabe como é, e …. máquina para dentro do castelo da proa e o camarada fotógrafo deixou de ser fotógrafo e não sabia ser camarada.
 
só me lembro, entre outras aventuras, de o barco dar um bordo e a água começar a entrar; havia dois escoadouros (vertedouros) a bordo, o cipriano pegou no grande e eu no pequeno. toca a escoar água. até que o cipriano escorregou e caiu de costas, e eu fiquei, por alguns minutos, a tentar escoar o barco – mas era mais a água que entrava que a que saía.
 
enfim, depois de muitas aventuras, o marco ferido, o barco também, acabámos por ficar com um honroso último lugar.
 
na hora da entrega das medalhas fui eu recebê-las em nome dos três. ao fim e ao cabo atendendo à minha longa experiência – reconhecida pelo senhor presidente da junta de freguesia – bem o merecia.
 
estes anos todos passados, o cipriano morreu, o presidente da junta já não é presidente, o marco é arrais e mestre na torreira e eu vivo na figueira da foz.
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cais do bico; regata do emigrante; 2006

 
os moliceiros têm vela (402)

os moliceiros têm vela (402)


falasse o barco

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regata do emigrante; cais do bico; 2006

falasse o barco
casa sobre a ria
onde filhos feitos
criados entre barcadas
a correr pelos bordos
 
falasse o barco
dos homens e da palavra
do norte e das noites
das varas e das velas
da dura sirga
do ancinho e do moliço
do junco e da gadanha
da padiola do engaço
da forquilha
 
falasse o barco
diria da festa do s paio
da tenda de vela
das caldeiradas
as melancias o garrafão
os rojões as enguias fritas
 
falasse o barco
ouvirias os moliceiros
antigos senhores
da ria
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regata do emigrante; cais do bico; 2006

 
os moliceiros têm vela (397)

os moliceiros têm vela (397)


emergência
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torreira; s. paio; 2014

 
as palavras
o silêncio
estar aqui
não basta
 
caminho como se
sou como que
 
tu ficas sempre
do outro lado
 
o tempo não se repete
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torreira; s. paio; 2014

 
os moliceiros têm vela (396)

os moliceiros têm vela (396)


aos que partiram
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torreira; s. paio; 2011

 
conversam comigo
como no tempo em que fomos
 
recusei vê-los
recusarei sempre
quando já não
 
preservo-lhes a vida
dentro da memória que sou
 
converso com eles mesmo se
debaixo de terra diante de mim
lembro-os lembrando-nos
 
sou os que foram comigo
serão sempre até que eu
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torreira; s. paio; 2011

 

os moliceiros têm vela (395)


cansado
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murtosa; cais do bico; ti zé formigo; 2019

 
fala-me do homem
diz-me que o entendeste
cansa-me esta busca
 
diz-me do homem
tudo o que aprendeste
cansa-me este estar
 
se cada homem é
um barco
ensina-me a navegar
 
é tarde e estou cansado
cansado cansado
cansado
 
os moliceiros têm vela (394)

os moliceiros têm vela (394)


porque sim
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torreira; regata do s. paio 2010

as palavras
planto-as algures
no canto mais luminoso
do jardim que tenho
o fundo do bolso
hoje não é dia de abrir
janelas
nem de as deixar voar
quero-as todas
para mim
e ficar assim
em silêncio
a pensar
tão somente
porque sim
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torreira; regata do s. paio 2010