os moliceiros têm vela (417)


1 de agosto de 2020, regata do emigrante, um olhar
0 acravo_DSC4078

o bruno daniel e o mestre zé rito

 
não foi ao domingo, foi no sábado, também não foi o percurso habitual, mas foi no bico. não estamos num ano comum, esperemos que não se prolongue.
 
uma regata de moliceiros é sempre um espectáculo e esta foi um grande espectáculo.
mas dentro dos moliceiros vão homens, homens que compraram moliceiros, homens que os fizeram.
 
este ano, em que perdemos um moliceiro para os canais de aveiro, ganhámos mais um “moliceiro” , o bruno daniel marçal dias que comprou o moliceiro do mestre zé rito. um jovem. mais um.
 
e é de jovens que quero falar, não os contei, mas em quase todos os moliceiros havia tripulantes jovens a mostrar ao resistente, ti zé rebeço, que os moliceiros continuam, haja vontade e apoio de quem decide – e este ano houve.
 
espero em 2021, voltar a ver a frota de moliceiros reposta – verdade, mestre zé rito?
 
parabéns bruno daniel – esta já é a tua segunda regata – aprendeste, como alguns mais velhos ainda não aprenderam, que não se pode ganhar sempre, que as regatas são uma festa, que há erros mas que não são propositados, que nas festas só pode haver festa, que o importante é participar e fazer da ria aquilo que ela merece: um lago de cisnes.
 
(torreira; 1 de agosto de 2020)

os moliceiros têm vela (412)


da regata da ria 2020
0 ahcravo_DSC9653

regata da ria 2019; ti abílio carteirista

 
a regata da ria 2020 foi uma boa regata, embora sendo feita contra a maré, o vento foi bom – levou até alguns a mudar de vela – e em cerca de 1h40m estava concluída.
 
10 moliceiros de classe A e 2 de classe B. inteligente a decisão da associação náutica da torreira de dar partida em primeiro lugar aos moliceiros de classe B – mais lentos – e só minutos depois aos de classe A.
 
apenas um moliceiro ficou pelo caminho e é para ele o meu abraço, porque dos que ganham se fala, mas aos que o azar atingiu, só o silêncio e o desalento acompanham. ainda por cima para quem participa pelo prazer de velejar, sem quaisquer pretensões de vencer. acontece. por isso o meu abraço.
 
uma regata pode ser vista de muitas formas: a da beleza da ria engalanada; dos painéis … tanta beleza que os olhos captam e as máquinas registam.
 
e a regata dos homens que vão nos moliceiros e que são cada dia menos moliceiros. ainda bem, porque rejuvenescida a equipagem da frota e mais promissor o futuro, pena porque a vão abandonando os “velhos moliceiros”.
 
esta foi a primeira regata que acompanhei e em que não participou o ti abílio fonseca (carteirista) e o seu “dos netos”, e também o ti zé caneira não foi arrais do moliceiro da câmara municipal da murtosa.
 
esta foi também a primeira regata do bruno dias, que comprou o moliceiro “zé rito”.
 
junto os três no mesmo abraço, o que foi criou as raízes do que vem, ambos merecem o respeito e o reconhecimento de quem não anda nisto “só pelos bonecos”.
 
a regata da ria 2020 foi uma boa regata, as fotos já publicadas por muitos assim o demonstram, a reportagem de uma televisão é elucidativa. eu, com a calma que os anos trazem, só quero que haja mais regatas, mais apoios, mais gente que aceite o desafio e que os moliceiros continuem a navegar em ria aberta.
 
as fotos que fiz na regata estão à espera que eu dê ordens.
 
os moliceiros têm vela (411)

os moliceiros têm vela (411)


regata da ria 2020
SONY DSC

cais do bico; 2009

quando quem manda em terra
desconhece as leis do mar
quem paga é sempre quem navega

errar é humano
repetir o erro é estranho
a terceira devia dar direito a despedimento

manda quem pode
somos um povo de brandos costumes
comer e calar

deixem que pergunte
quem manda nas datas das regatas
alguma vez andou na ria
de moliceiro

ou será que
nunca saiu dos canais
e porque manda nas comportas
julga ser senhor das marés

como dizem os murtoseiros
queria-se “bem escafunadinha”
aquela cira

SONY DSC

cais do bico; 2009

os moliceiros têm vela (404)

os moliceiros têm vela (404)


é um amigo
KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

cais do bico; regata do emigrante; 2006

um homem caminha na ria
um amigo aqui agora
sempre
 
súbito tudo é memória
 
sei que nunca se regressa
sei que a memória
é a única forma de voltar
 
nada mais resta
nada mais
resta
 
um homem caminha na ria
é um amigo
KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

cais do bico; regata do emigrante; 2006

os moliceiros têm vela (403)

os moliceiros têm vela (403)


6 de agosto de 2006
KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

cais do bico; regata do emigrante; 2006

 
dia de regata do emigrante no cais do bico, como era hábito a família almoçou na tenda/restaurante da junta de freguesia da murtosa, de cujo presidente os meus pais eram amigos, mas eu não – políticas …
 
em 2005 eu tinha começado a fotografar a companha do marco, que nascera nesse ano e que acompanhei até 2016. tinha sido arrais o cipriano, que deixou de o ser em 2006, para passar a ser o marco. mas isto é uma outra história.
 
o marco e o cipriano apareceram com um moliceiro na regata, de que não me lembro o nome, e quando o marco me viu a fotografar perguntou-me se não queria ir com eles. claro que sim. saltei para dentro do barco e comecei a fotografar. faltava ainda um camarada – cada barco tem direito a três camaradas.
 
quando o terceiro camarada chegou, já o barco estava para largar. então, do seu posto de controlo, o digníssimo presidente da junta de freguesia da murtosa grita para o marco:
 
– só podem ir três no barco e estão quatro
 
ao que o marco respondeu, o que era óbvio:
 
– mas o sr. cravo só vai para fotografar
 
– conta na mesma – disse quem de direito
apesar da calmaria, eu disse ao marco que saía do barco e que ele precisava era de um camarada e não de um fotógrafo. não senhor, vai connosco – foi a resposta. e fui.
 
passados poucos minutos da regata arrancar, levanta-se nortada, quem conhece a ria sabe como é, e …. máquina para dentro do castelo da proa e o camarada fotógrafo deixou de ser fotógrafo e não sabia ser camarada.
 
só me lembro, entre outras aventuras, de o barco dar um bordo e a água começar a entrar; havia dois escoadouros (vertedouros) a bordo, o cipriano pegou no grande e eu no pequeno. toca a escoar água. até que o cipriano escorregou e caiu de costas, e eu fiquei, por alguns minutos, a tentar escoar o barco – mas era mais a água que entrava que a que saía.
 
enfim, depois de muitas aventuras, o marco ferido, o barco também, acabámos por ficar com um honroso último lugar.
 
na hora da entrega das medalhas fui eu recebê-las em nome dos três. ao fim e ao cabo atendendo à minha longa experiência – reconhecida pelo senhor presidente da junta de freguesia – bem o merecia.
 
estes anos todos passados, o cipriano morreu, o presidente da junta já não é presidente, o marco é arrais e mestre na torreira e eu vivo na figueira da foz.
KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

cais do bico; regata do emigrante; 2006