venderás o peixe no mercado
aos fregueses fiéis
comprar-to-ão por comodidade
hábito e cansaço
às quintas montarás banca
na feira venderás coisas várias
outros caminharão à tua sombra
serás o chefe não o líder
nas terras piquenas é tão fácil
parecer grande
esqueço-me
com facilidade
o tempo já
não me chega
porque curto
para tanto
lembro-me
com dificuldade
as palavras
sobem a custo
os degraus
do poema e hesitam
antes de
escuto-me
com acuidade
perco-me
muito
encontro-me
tanto
sou ainda
de incerteza se fazem estes dias
em que os sábios ignoram
e os ignorantes dão aulas de sapiência
tempo de bruxas dirás
de todos os santos dizem
dos defuntos fiéis ou não
que tudo incerto é
guardo o tempo no fundo
dos olhos
decoro com palavras
as imagens
nascem rostos nomes
aconteceres
não invento passados
para ser hoje
caminho leve de ter sido
porque inteiro
sou o que o tempo conta
não o que contam
abraço o sol e a noite
os dias cheios
ninguém mata o que foi
apertam-se as mãos
e são letras de palavra dita
palavra honrada
homens grandes
frontais de olhar límpido
mãos enormes corações
foram eles o vento que enfunou
as velas do meu estar
com eles naveguei por outras terras
e regressei sempre
às raízes
(a história dos moliceiros, homens e barcos, pode escrever-se com esta imagem:
a palavra dada era palavra honrada, selada no aperto de mãos.
isso aprendi quando me fui fazendo por estas bandas, onde homens de palavra apertavam as mãos.
conheço estas duas mãos, são de dois grandes amigos moliceiros: ti abílio e ti zé rebeço, os dois moliceiros mais antigos da ria.
o ti abílio já vendeu o moliceiro e o ti zé não sabe quanto mais tempo terá forças para o seu.
saber sair é um acto de sabedoria e eles sabem-no.)
na bica da proa o sonho
navegou ria fora velas
enfunadas
brancas sempre brancas
poiso de palavras
de desejos
branca a espuma à ré
marca de nada mais
também eu
a alegria de estar na ria com os amigos e assistir ao espectáculo das regatas, é um acontecimento que não perco, que não perderei enquanto puder.
o agradecimento ao quim calmaria pela forma como está sempre pronto para mais uma regata e o saber “o que os fotógrafos querem”. boa safra nos mares do norte, quim
ao jim por ter “estado de prontidão” com a sua chata, para o caso de aparecerem amigos à última da hora e que quisessem acompanhar a regata no meio da ria.
ao jorge bacelar, ao silva tavares, à isabel lobo e ao pedro (que vieram de lisboa e do porto, de propósito), pela alegria de estarmos juntos e acontecer fotografia
ao amigo que, do paredão, quando viu chegar a chata, gritou “ah gorim!” – há quantos anos não se ouvia este grito na ria…
vêm de longe
trazem nos olhos a limpidez
da ria antiga
homens inteiros
fogem das ribaltas
que outros buscam
a qualquer preço
escondem-se para serem
o que sempre foram
são eles serão sempre eles
as minhas raízes