
ilha da morraceira; rer; 2019

ilha da morraceira; rer; 2019

rer

rer
vivo de

achegar
se me vires a sorrir
quando caminho
é porque há um outro
dentro de mim
jovem ainda cheio de
tudo por fazer
vou com ele por aí
vivo de sonhar-me
(morraceira; achegar; 2016)

morraceira, rer, 2016
sobram palavras
hoje
guardo as palavras
para outro dia
chove em junho
o sol tarda
com ele o sal
não sei
quando o verei tirar
mau vai o ano
para quem dele vive
sobram palavras
onde o sal falta

(morraceira; tirar; 2016)
o brilho do sal
súbito
tudo é nada
do pouco
que na mão
num sopro tudo
se foi
a memória resiste
onde o presente
abraça o espanto
uma mão parada
no tempo
ainda te acaricia
no brilho do sal
a luz refaz-se
para ser sol
só
no brilho do sal

(morraceira; rer; 2016)
dúvida
aos que não vêem
chamam cegos
aos que julgavam
ter visto
o que chamarão

(morraceira; tirar; 2016)
cristais de mar
beijada pelo sol
a água adormece
no leito do talho
cristalina acorda
no estremecer
de humanas mãos
é agora sal
frágil flor
ínfimas pedras
cristais de mar

(morraceira; tirar; 2016)
há muitos futuros
o fim da ilusão
não mata a memória
enterra um futuro
na salgadeira a carne
esperava o verão
o cozido à portuguesa
a couve do quintal
a água do poço
o frango da capoeira
já não há enguias na ria
à limpidez dos dias
nos olhos nos afectos
sabores e saberes
regresso sempre
eis agora do sal a beleza
tempero de outros dias
há muitos futuros

(morraceira; rer; 2016)