
morraceira, rer, 2016

morraceira, rer, 2016
(…)
ao contrário
do artista
a memória
só concebe
esboços

(armazéns de lavos; rer; 2017)
cálculos
quando se cansou
de somar
subtraiu
quando se cansou
de multiplicar
dividiu
sonhava com
o infinito
e encontrou
o zero
a matemática
não é uma ciência
exacta concluiu
nem eu

rer
(armazéns de lavos; rer; 2017)
o brilho do sal
súbito
tudo é nada
do pouco
que na mão
num sopro tudo
se foi
a memória resiste
onde o presente
abraça o espanto
uma mão parada
no tempo
ainda te acaricia
no brilho do sal
a luz refaz-se
para ser sol
só
no brilho do sal

(morraceira; rer; 2016)
há muitos futuros
o fim da ilusão
não mata a memória
enterra um futuro
na salgadeira a carne
esperava o verão
o cozido à portuguesa
a couve do quintal
a água do poço
o frango da capoeira
já não há enguias na ria
à limpidez dos dias
nos olhos nos afectos
sabores e saberes
regresso sempre
eis agora do sal a beleza
tempero de outros dias
há muitos futuros

(morraceira; rer; 2016)
sal do mar
no primeiro dia do ano
seja do mar o sal
tempero dos dias a vir
sol que nos espera
sal do mar sol à mesa

(morraceira; rer; 2017)
é tarde
é tarde
é sempre tarde
depois de

(morraceira; rer; 2016)
das crianças
sei da inocência das crianças
por isso não estranhes
que as ame
são minhas irmãs todas

rer
(armazéns de lavos; rer; 2017)
o milagre do sal
vamos encaminhando
a água
até chegar aos talhos
em dias de sol
forma-se o sal que nós
com trabalho e suor
tiramos
como é que a água
se transforma em sal
isso é milagre
assim me explicaram
de forma clara e simples
não ganham que baste
para contratar consultores
que lhes expliquem
o milagre

rer
(morraceira; 2016)
é sempre verão
o servo
do senhor recebia
a parca paga e era sal
o vassalo
tempera as palavras
com ervas aromáticas
o senhor sorri
para ele é sempre verão

(rer; armazéns de lavos, 2017)