tudo são aparências

o zé e o seu moliceirinho
é nos dias de calmaria
que nasce a tempestade
tudo são aparências

de chapéu verde, o s. paio do zé rebelo
(torreira; regata do s. paio; 2014)
o zé rebelo prepara o seu moliceirinho para a regata
tudo são aparências

o zé e o seu moliceirinho
é nos dias de calmaria
que nasce a tempestade
tudo são aparências

de chapéu verde, o s. paio do zé rebelo
(torreira; regata do s. paio; 2014)
o zé rebelo prepara o seu moliceirinho para a regata
ser ainda

colhe a rede onde eu colho a luz
escutar a luz
perder-me de mim
reencontrar-me
ser ainda

no silêncio da ria o joão magins colhe a rede e, com sorte, alguns chocos ou linguados
(ria de aveiro; torreira)
eternidade breve

chama-se marta
nasceu no dia 20 de março
às 23 h 30 minutos
pesava 3,655 quilos
media 50,5 cm
isto não é um poema
é o meu sangue
noutro sangue
noutro corpo
inescrevível ser
é o tempo depois
de o meu tempo se acabar
a terceira neta
a terceira menina
e todas todas
são a primeira
são a minha
eternidade breve

(torreira; regata do s. paio; 2014)
raiva de não ser faca

regresso ao essencial
à dureza da rocha
ao sal colado ao corpo
ao povoamento da ria
terra de pão incerto
mãe do sorriso sofrido
o esqueleto exposto
à rudez da vida
sem molduras coloridas
raiva de não ser faca
(torreira; cabrita baixa; 2012)
quando “japónica” abundou na ria e matou a fome a muita gente
o poema da ria

avô e neto
o mestre zé rito
e o zé pedro
este é o poema da ria

(torreira; regata da ria; 2011)
o drama

ínfimos somos
o tempo não existe
tu sim
a distância não existe
tu sim
esse o drama

tão pouco somos
(torreira; porto de abrigo)
partir

sentir com os olhos
ser o olhar
nada mais que isso
depois
como sempre
partir
que futuro aqui?

(torreira; regata s. paio; 2014)
joão manuel brandão (3)

sofridas letras
esculpidas na carne
escritas no rosto
saber os caminhos
do suor ao oiro
da dor à fortuna
é uma outra ria
onde é sempre
maré vazia
cheia de lamas
apodrecidas
depositadas
nas margens
este é o postal
que não encontrarás
no sítio habitual

(torreira; cabrita alta; 2012)

não me
perguntes porque voam os pássaros
não sei
só me lembro de abrir as asas

(murtosa; regata do bico; 2010)
joão manuel brandão (2)

o rosto
a arte
a ria
o pão
sofrido

(torreira; cabrita ata;2012)