adia-se o luto
não a morte
perguntas porquê
e eu digo-te
eles não sabem
que não esquecemos
soubéssemos
antecipar-lhes a morte
(moliceiros; regata do s. paio; 2013; torreira)
da poesia
a poesia casa
o poeta dentro da casa
pensa-se diz-se é
o imaginado
a poesia janela
o poeta espreita o mundo
pela janela e retira-se
para dentro da casa
escreve respirou ar livre
a poesia porta
o poeta sai de casa entra
no mundo pensa-o
escreve-o descreve-o
cidadão da palavra
a poesia epígrafe
ou será epitáfio
esconde o medo do poeta
sob a capa do outro
o consagrado o inquestionável
teme pelo poeta
(moliceiros; s. paio; torreira; 2012)
os moliceiros têm vela (566)
a minha língua é filha e mãe
pare e acolhe é colo e berço
a minha língua é viva
a minha língua tem as portas
abertas às palavras
às gentes às geografias
a minha língua é antiga e jovem
é muitas linguas é rio
rico de afluentes desagua em delta
a minha língua é livre
se acordos quiseram acorrentá-la
oiçam-na migrante na sua terra
a minha língua é pacífica
mais que isso humilde
resigna-se a que dela mal digam
e o façam usando-a
a minha língua já foi e há-de ser
mais que os que a usam
permanecerá no tempo
sorrindo ao mundo portuguêsmente
a minha língua não tem dono
e só é minha porque a uso
não porque me pertença
e tua será se a usares
não mordas a tua língua
o sangue pode sufocar-te
(moliceiro; regata da ria; torreira; 2014)
uma bomba caiu
dentro do poema
palavras estilhaçadas
mortas irreconhecíveis
escorrem sangue
é branco o sangue
das palavras
soma de todas as cores
a paz também
uma bomba caiu
dentro do poema
há letras perdidas
desaparecidas
amputadas mortas
é negro o sangue
das letras
ausência de todas as cores
a guerra também
(por caminhos de lama e ria; torreira; 2010)