os moliceiros têm vela (560)


não foi falsa a partida
ti abílio
foi a sua vez foi sozinho

em 2024
a ria perdeu a brejeirice
perdeu-o

carteirista era a sua alcunha
ti abílio

nas regatas
não era a competição
era a participação
a justiça

um carteirista
a clamar justiça
só na ria
só você ti abílio

a sua regata chegou ao fim
em 2024
a nossa amizade continua
até eu partir

(ti abílio carteirista; s. paio; torreira; 2016)

postais da ria (543)


poemas de amor 
gostava de os escrever
e de os entregar

aos senhores da guerra
aos donos da economia
assassinos de crianças

escorrem-me pelo rosto
amargura e vergonha
raiva e impotência

merda álvaro
também eu sou lúcido

não não sou daqui
recuso-me a ser

poemas de amor
não sei escrever

(porto de abrigo; torreira; 2009)

crónicas da xávega (588)


recuso o silêncio cúmplice
os acomodados dias
sofá lareira
livro música

recuso não ser aqui
no meu
tempo o grito a revolta
o nojo

recuso o jardim o quintal
mesmo se num qualquer andar
a cadeira de braços a sombra
o perfume das flores

recuso a clandestinidade
do que penso
sou e digo-me
não vou a chás das cinco

(xávega; ir ao mar; torreira; 2013)