postais da ria (396)

postais da ria (396)


em 2010 o dia 28 de agosto foi assim:

” um dia em cheio. 7h45m- torreira; 8h30m – partida para a ria com dois pescadores para, durante cerca de 1h30m, fotografar e filmar o colher das redes; 10h30m banho no mar; 14h30m – o marco resolve ir ao mar, até às 17h fotografar e filmar um lance de xávega. assim um dia‌”

um dia intenso, como eram todos os dias

porque de tudo haverá partida
e se fará memória se a houver

malhas cheias as da minha rede
forçoso voltar a terra e descarregar

tempo de contas e de ter sido
farto e intenso nunca pela metade

porque de tudo há partida
resta a memória

(de partida para cabritar berbigão, ou ameijoa)

postais da ria (394)

postais da ria (394)


eternidade breve

o assassínio do futuro
condena-me a conjugar
os verbos no passado
se os nomeio

folhas secas juncam o chão dos dias
inscrevem nomes na memória
povoam o silêncio

estar vivo é saber
da morte dos outros
ser a sua eternidade breve

outra não há

torreira; regata bateiras à vela; são paio; 2013

postais da ria (393)


a lama dos dias

lembrados sereis
pelo que não fizestes

fracos heróis
tendes o tamanho da vossa ausência

impossível desfazer o nó 

ao valor do homem
sobrepôs-se o valor das coisas
sinal dos tempos digo

sabedoria antiga de aldeia 
nos meus ouvidos soa
vós é que sabeis

sobre vós a lama no nome

torreira, um outro olhar (16)


dizer
o teu nome
o nome de todas as coisas
as coisas que cada nome encerra

dizer
tantas vezes a mesma palavra
até que ela perca o sentido
e a sua ligação com a representação

dizer
como é doloroso o parto
das palavras
que ainda não disse
ou se disse como as escrevi

dizer
tanto em tão pouco
ser imenso e ínfimo
límpido e complexo

dizer
com palavras amo
e escutá-las
na boca do outro

torreira; 11/07/2021