lembro os dias a luta
a indecisão de
o não saber como
a aceitação a revolta
as divisões a impotência
as armas e os barões
gordos e guardados
protegidos afilhados
um tempo gordo bolorento
lembro os dias da decisão
das armas roubadas aos barões
dos canhões à praça virados
da festa da liberdade
tempo de cravos na mão
foram-se as armas
ficaram os barões e os afilhados
livres as palavras e o engano
livre tu para recusar e seres
ainda não é pleno o nosso tempo
gosto muito
de mínimas
máximas há que baste
por aí
sempre as houve
mas é nas mínimas coisas
que os olhos
que sabem ver
se perdem
que o coração
que sabe sentir
se afoga
que as mãos sábias
se encontram
são as mínimas coisas
que nos ferem e nos
alegram
por isso
cada vez mais gosto
muito de mínimas
estranha linguagem
a dos dedos
quando se dão
quando tocam
quando nos percorrem
que segredos
contarão
que palavras
escreverão
sensíveis polpas
onde o prazer
nasce
estranha linguagem
a dos dedos
sê grato às portas que te abrem
e às que te fecham também
ser de todos é não ser de ninguém
de ti primeiro que todos quiseste ser
fizeste-te dizendo não calando
disseste presente ao mau tempo
sê grato às portas que se fecham
e às que te abrem és tu em todas
sê grato à diferença
como o vento despenteia as ondas
do agostinho trabalhito (canhoto) muito haveria que contar, mas fico-me pelos últimos anos.
trabalhou na companha do falecido zé murta e trabalha agora na companha do marco. a corda ao pescoço serve para atar a manga antes do calão e, assim, impedir que alador “coma” e quebre o calão.
pelo caminho lavou pratos num restaurante e dedica-se à pesca à cana (ainda de bambu) para apanhar peixe mais “grosso” que aumente a dispensa da família ou para vender aos restaurantes.
dos muitos irmãos que tem não posso deixar de recordar dois já falecidos: o zé trabalhito e ti antónio trabalhito, ambos homens de mar, ambos homens da torreira
espero
como se viesses
olhando o longe
de não estares aqui
para além de mim
para além de tudo
os olhos prendem-se
no vento
procuram-te
tu sabes
esperar não é assim
tão difícil
quando nos sentamos
no vento
e é de mar
o solo que pisamos
na murtosa ser canalha
era ser miúdo
ser garoto
era ser grande sem ser homem
ser homem era ter palavra
no tempo em que eu
era canalha e não distinguia
os garotos aprendi as palavras
e a ter palavra
continuo a ser canalha
recuso ser garoto
queria dizer-te
desta solidão
em que nos deixam
os amigos
que partem
para sempre
não
não é a chamada do mar
que os leva
mas a da terra
que não perdoa
só isto
te queria dizer