saravá meu irmão porque hoje
faz 30 anos que te foste sem teres partido
mas sabes:
tem muita gente bebendo no bar
porque hoje é sábado
e um pato que passa em seu bambolear
porque hoje é sábado
a garota de ipanema continua linda
porque hoje é sábado
e maria bethânia é sempre bem vinda
porque hoje é sábado
tem um operário em construção
porque hoje é sábado
e toquinho pegou em seu violão
porque hoje é sábado
tem um poeta sentado à mesa
porque hoje é sábado
e uma festa feita de surpresa
porque hoje é sábado
tem uma garrafa de whisky e um copo cheio
porque hoje é sábado
há alegria e há receio
porque hoje é sábado
há uma voz rouca que canta
porque hoje é sábado
e nada no mundo já nos espanta
porque hoje é sábado
há uma moça morta em miramar
porque hoje é sábado
e um aniversário a comemorar
porque hoje é sábado
há um homem que não morrerá jamais
és tu meu poeta vinicius de moraes
porque hoje é sábado
há um poema que atravessa o mar
e há ondas que te querem abraçar
porque hoje é sábado
saravá meu irmão
porque hoje é sempre o teu sábado
(visita: http://www.tocadovinicius.com.br/)

torreira; 2007
uma das artes de pesca da ria de aveiro é a arte do berbigão.
o aparelho é a “cabrita” que pode ser “alta” ou “baixa” consoante o tamanho do cabo, tendo em conta se a apanha é feita em zonas de profundidade ou em “cabeços”.
nesta arte o trabalho, para ser rentável, é repartido entre marido e mulher.
a apanha depende de três condicionantes:
1. da permissão para a apanha
2. do tipo de licença do pescador
3. da encomenda
cada saco leva 20 kg de berbigão, por aqui se vê a força do sexo fraco da ria.

torreira; 2007
(falaremos dela com mais pormenor técnico e fotos a seu tempo)
lembras-te de quando nasceste?
nunca te lembrarás da tua morte
são estes, porém, os momentos mais importantes da tua vida

nunca lhe soube o nome era o nosso vizinho sempre em torno das suas duas paixões e preocupações o carro e a esposa era vê-lo nas tarde soalheiras de inverno capô aberto a dar de respirar ao motor a sacudir os tapetes a pôr o motor a trabalhar e a andar dez escassos metros com o carro era vê-los sentados ao sol manso de inverno abrigados do vento frio pelas paredes de vidro e chapa do carro ele a ler o jornal ela a fazer renda nunca lhe soube o nome conheci-lhe porém um pouco da vida mais importante que o nome nas conversas parcas das horas mortas do intervalo de almoço gostava de os ver a descer a calçada a caminho da bica depois de almoço ou do jantar se o tempo ajudava nunca lhe soube o nome mas nunca lhe esquecerei o rosto a educação que já não se usa o dobrar ligeiro sem ser servil da coluna enquanto levava a mão à cabeça para solevar o boné o cumprimento sempre pronto coisas de aldeia perdida na cidade nunca lhe soube o nome e agora mesmo que o viesse a saber já não poderia chamar por ele será sempre o nosso vizinho
nota – a foto não é do “nosso vizinho” é de todos os vizinhos