tu


 

o moliceiro do mestre zé rito, espera, ao longe, no seco, a vida

o moliceiro do mestre zé rito, espera, ao longe, no seco, a vida

 

não te agarres ao que foi
o ter sido lhe basta
o que há-de ser
sê-lo-á mesmo se sem ti
só agora
aqui
aquietado o tempo
és

não deixes que a ilusão
do amanhã
seja o teu tempo sonhado

repito
hoje agora já
és

tu

 

(torreira)

carapau acamado


 

a escolher carapau em cima do atrelado

a escolher carapau em cima do atrelado

 
em linguagem de pescador, isto não quer dizer que o peixe esteja doente, mas que anda em grande quantidade.

hoje o dia correu bem, fizeram-se 3 lanços, o carapau era lindo e de bom tamanho.

na xávega há dias assim, para contrariar a maior parte do ano, em que se está parado, e as muitas vezes em que não se ganha para a despesa.

 

(torreira; companha do marco; jun.14)

portugal


 

 

ahcravo_DSC_8127_bateira marina
porque hoje é o teu dia
este é o teu futuro

queira ou não queira
quem por ti fala
é este o teu povo
o que todos os dias
quer ser gente aqui

portugal
olha para este miúdo
e vê como é enorme

portugal
quem usa o teu nome
esquece muitos dos teus

portugal
se tu estás mal
ele também está

portugal
amo-te

(torreira, marina dos pescadores, jun.2014)

eu


 

 

mais um andar ou o resto do aparelho da solheira prestes a ser colhido

mais um andar, ou o resto do aparelho da solheira, prestes a ser colhido

entre os poetas
que se dão ao trabalho de ler
palavras minhas
penduradas em imagens
sou
um fotógrafo

ao contrário
entre os fotógrafos
que distraidamente
soletram os poemas
que às imagens junto
sou
um poeta

falar de mim é por isso
escrever em imagens
registar com palavras
sempre o outro
o que não é

passo por entre
e fico em mim
a ser eu

sorrindo
(lentamente a rede vai sendo colhida pelo joão costeira, e eu fico assim pendurado do que sou, a boiar nas águas da ria)

fazer pelo hoje


 

 

como era duro

como era duro

 

 

foi-se o tempo
regressam os dias
a isso chamam
recriar

recreiam-se alguns
com o recriar
na contemplação
do como era
tudo sobrevoam
sem poisar no ter sido

não
não era assim
era

vêm de longe
ver o que nunca viram
e vão sem terem visto
porque nunca nada é
o que foi quando foi

é tempo de recuperar a memória
de recriar
seja este o tempo de
preservar o presente
para que não seja ele também
passado já

os que da xávega vivem
dir-vos-iam isto
se fossem mais que pescadores

 

(torreira; recriação da xávega com bois, setembro 2013)

 

 

viver


 

 

chegado, era manhã e eu ......

chegado, era manhã e eu ……

 

poderia dar-te tudo
mas é de nada que são feitos
os mais belos momentos
nada
é a possibilidade de seres
tu a fazer tudo

a solidão ensina-te a ler
as cores do silêncio
desenharás o que quiseres onde
e como te apetecer

tudo o que te ofereço
é o nada onde podes ser criador
de um mundo diverso
claro e diurno

fácil será receber
estar vivo é fazer

assim te quero

(no chegado a hora por vezes não chega)

fala da areia


 

o aparelhar das redes; torreira; companha do marco; 2011

o aparelhar das redes,  torreira, companha do marco, 2011

 

 

pergunto à areia como resiste
à fúria invernal do mar
e continua aqui
leito de homens barcos artes

diz-me que do mar filha é
sempre foi
e um dia a ele retornará
destino de

fala-me me dos homens
das máquinas
que passado o inverno
a que foi poupada
a vêm roubar
para destinos que não seus

diz-me que histórias
muitas haveria para contar
mas é tarde
muito tarde
o sol queima

a areia arde

 

olho a ria e penso a urbe


a bateira do marco (fátima m.) abraçada por um velho moliceiro
gastam o tempo em estarem vivos
sem fazerem coisa outra
que isso mesmo

começam o dia quando

sentam-se nos cafés
lêm os jornais com a bica
as necrologias em destaque
depois da tensão
ou o inverso
que importa

falam do porquê de estar assim
aqui tudo onde eles também
e pelo falar se ficam que mais
já tempo foi de
agora outros que

perseguem a vida pelo puro prazer de
nada para além dela
que dela pensam saber o que fazer
nada

têm por projecto o estarem vivos
isso lhes basta
que coisa dura esta de estar por aqui

vivos ainda

 (torreira)