os moliceiros têm vela (477)


era uma vez no oeste

falarei ainda do
silêncio
da memória de 
ter sido
do sopro no teu
ouvido

de dois corpos 
nus 
de duas sedes
de duas fomes
de um só desejo
no mesmo beijo

falarei ainda do 
silêncio

até que não me
oiçam

até que dentro de ti
me sintas

e  seja o nosso
o grito

(murtosa; regata do bico; 2010)

MARIA GRACIETE BESSE


poesiayotrasletras's avatarPOESíA Y OTRAS LETRAS

[ Monte de Caparica, Almada, Portugal, 1951 ]

Créditos da imagem: http://www.bertrand.pt

No volume de Maria Graciete Besse, Na inclinação da luz, percebemos a presença da finitude e, portanto, a imperfeição da qual se vêem circunscritas as pessoas, as coisas e as memórias. Então, estamos diante de um ego que não é capaz de manifestar sua plenitude e, portanto, acaba sendo imperfeito. Adversidade, culpa, sofrimento e morte denotam a radical finitude da existência humana, que é um incessante esforço em direção ao ser, sem nunca ser capaz de alcançá-la; mas é também uma incessante sujeição à tensão da transcendência. Desta forma é definida uma escolha do tipo expressionista que permite à autora uma ampla capacidade de ação, onde a verdade biográfica tem poucas alegrias a expor e em seu lugar aparece o aspecto mais inquieto de seu ser, tão próximo da perturbação.

Para concluir, estes breves poemas não aprisionam…

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