fui-me

cirandar
anoiteci-me aqui
é tarde meu amigo
é tarde
fui-me

cirandar
(torreira; 2016)
fui-me

cirandar
anoiteci-me aqui
é tarde meu amigo
é tarde
fui-me

cirandar
(torreira; 2016)
decisão

o que vêem os olhos de um pescador
disseram-lhe
corta o mal pela raiz
não hesitou
logo ali cortou os pés

por onde andará o peixe?
(torreira; 2012)
com o meu amigo salvador belo, de partida para largar a solheira
dia de s. paio

hoje é dia de s. paio, na torreira, dia do santo padroeiro da terra e dos pescadores. e eles bem precisam de um santo que os proteja da fraca safra, dos baixos preços, das viagens para que muitos partem em busca do pão que a ria nega
“mamã! papá! encontrei uma concha fechada, mas não tem nada, é tudo negro”
uma menina de 6 ou 7 anos, espanhola, dizia assim aos pais o que tinha encontrado na ria. em palavras simples, dizia afinal como estava a ria.
o choco rareou, o berbigão cada vez menos, o linguado pouco, a amêijoa quase nenhuma. os preços de venda ….. não os digo que vergonha tenho.
não há futuro na ria e os jovens partem para o bacalhau, os menos jovens também, se não é para o bacalhau é para a pesca noutros países.
quantos não estiveram nas festas do seu santo? não remaram, não velejaram, não viram sequer os seus amigos.
será que o s. paio lhes vai valer? se não for ele, haverá alguém?
é para os pescadores da torreira esta publicação, onde as velas brancas são o desejo de que consigam sobreviver e fazer vida. são senhores da ria e patrões do mar: brava gente.

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio, 2016)
o cigano

onde antes areia moliço
peixe luz alimento
nada mais que um charco
rodeado de lama
lama na ria e um cemitério
de bateiras
à espera da despedida
dos donos
a lama invade tudo
chapinha-se na lama
e dá-se-lhe bandeira doirada
na ilusão de pescar incautos
reconheço o fim do tempo
na maré vazia
a que nem os homens resistem
partem os que podem
ficam os que já não
ou porque também
o cigano desmonta a tenda
lava os pés e as mãos
na pouca água que resta
purifica-se
o cigano não muda a terra
muda de terra
é esse o seu destino
sonhar sonhar sonhar
nada é em vão

(torreira; porto de abrigo; 2016)
o meu país arde

9 horas da manhã e era noite
o meu país arde
de abandono
e não há lágrimas
que apaguem
erros de anos
o meu país arde
de ter sido um dia
à beira mar plantado
da beira mar arrancados
os filhos mal amados
o meu país arde
o meu país arderá
até nada mais restar
que a memória do verde
e de terem havido árvores
que se tornaram naus e barcos
o meu país arde
como arderam os olhos
dos que partiram
quem se lembrou deles então?

haverá beleza no inferno?
(torreira; 8 de agosto de 2016)
da amargura

o manuel fonseca (manuel tala) a cirandar berbigão
quando o conhecido
se torna desconhecido
é tempo de ser outro
os navios partem
sem saber de regresso
semeando o mar
de saudades amargas
fecham-se portas
outrora escancaradas
e não há janelas
por onde luz venha
é tempo de ser outro

o colorido dos dias é agora outro
(torreira; julho; 2016)
nunca mais

rapa-se o cabeço em busca ameijoa ou berbigão
à beira ria juntam-se
os que regressaram
contam os dias idos
o tempo em que partir
já era urgente
não por ser parca a safra
mas sem futuro
o que a vida prometia
do que havia então
pouco resta
nem moliço nem peixe
sequer a ria
olha-se tudo com tristeza
regressou-se à ausência
vive-se com a memória
sente-se que o fim de tudo
não tarda e repetem
não há futuro aqui
nunca mais

a névoa cobre tudo, até o futuro
(torreira)
o tempo é pouco

o ignorante
não sabe que não sabe
o sábio
sabe que não sabe
os que não sabem
nem querem saber
ensina o sábio
que se ignorem
o tempo é pouco

(torreira)
por vezes leio jornais

cabrita de pé
sei que são muitos
sei que fazem desta arte
modo de vida uns
de sobrevivência outros
de opulência poucos
sei que são muitos
mas que cada um
é um não é todos
sequer muitos
quisera alguns
sei que não sei nada
mas oiço muito
leio um pouco
aprendo todos os dias
sei que nada sei
mas o que não sei
que não sei
é muito mais que
tudo o que sei
e assusto-me
com tanto
sei que eles sabem
sei que se queixam
sei que nada fazem
sei como são
eles também
e há quem saiba muito mais
eu?
eu só tiro fotografias
por vezes leio jornais

muito dura a arte da cabrita
(torreira; cabrita de pé)
boas fotos

chegaste agora
não sabes os nomes
não conheces as histórias
trazes contigo uma máquina de fotografar
olhas e encontras o motivo
disparas repetidas vezes
gostas do que viste e registaste
ignoras tudo o que para além do registo
desfrutas do olhar e sorris
quando lês o exif
e se
a perspectiva real for inversa da registada ?
e se
aquele homem ao fundo tiver nome ?
e se
o que ele traz no braço for parco para tantas horas
de esforço quase insuportável ?
e se
em vez de olhares e fazeres (digo eu)
um registo interessante de perspectiva
procurasses respostas para o que registas ?
então
não estarias aqui de férias em busca de imagens
serias mais um na comunidade e isso
meu amigo aqui pode ser perigoso
boas fotos

(torreira; junho; 2016)