crónicas da xávega (617)


imagina que não estás aqui
que este não é teu tempo
não vês não ouves não lês

imagina e escreve
um poema de amor
uma história ligeira

pedi-te que imaginasses
porque a realidade
é inimaginável

experimenta
atirar palavras contra o real
e imagina que algo muda

imagina e escreve
um poema de palavras duras
porque duros são estes dias

estás vivo e não precisas
de imaginar basta seres

(xávega; o arribar da manga; praia da leirosa; 2019)

crónicas da xávega (616)


a criança amputada
irmã da que mataram
é minha neta

a mulher que chora
a família perdida
é minha irmã

o homem que grita
o nome do filho soterrado
é meu irmão

o sangue que escorre
daquele corpo desfeito
é o meu sangue

como podem querer
que me cale

(xávega; pancada de mar ; torreira; 2013)